Ensaios

Liberte-se, renove-se, Laerte-se!

Autor(a): Maschereri | 7 de outubro de 2018 | 16:25

Um dos temas mais debatidos hoje em dia é, sem dúvida, a questão de gênero. Demonizada por uns e normalizada por outros, muito se fala e pouco se conclui sobre o assunto.

Vivemos  em uma era de verdadeira desinformação, com direito a notícias falsas e toda aquela ladainha que a gente já conhece bem, e isso ajuda exponencialmente na difusão de boatos maldosos e cruéis por aí – e é nosso papel, como seres humanos, tentar entender o mundo em que vivemos, assim como todas as pessoas que vivem nele.

Primeiro de tudo,antes de começarmos a discussão que me propus a fazer,  é necessário deixar claro que OPÇÃO SEXUAL NÃO É A MESMA COISA QUE GÊNERO, ou seja, gênero é a maneira como você se percebe diante do mundo – seja como homem, como mulher, ou outro – enquanto opção sexual é de acordo com a atração que você sente por outras pessoas – seja  por pessoas do sexo oposto (heterossexual), mesmo sexo (homossexual),por ambos os sexos (bissexual) ou outros.

É importante fazer essas distinções,para que mal entendidos não ocorram, uma vez que esse texto comenta principalmente sobre gênero, e em especial, sobre uma condição chamada Disforia de Gênero.

Segundo a MSD, a Disforia de gênero é uma condição caracterizada por identificação forte e persistente com o gênero oposto. Essa condição varia entre leve e extrema, e em casos mais extremos, como nos casos em que essa não-identificação causa sofrimento na pessoa em questão,  é tratada com terapia hormonal e cirurgia de ressignificação de sexo (e o indivíduo passa então a ser chamado de transexual).

Mas nem sempre uma pessoa em condição extrema de disforia de gênero precisa,necessariamente, passar por terapia hormonal e intervenção cirúrgica. Existe toda uma questão espiritual envolvida,assim como condições de saúde e financeiras.

No Brasil, poucas pessoas transexuais figuram entre os chamados ‘’famosos’’ brasileiros. Existe ainda uma grande resistência ao novo e ao diferente, assim como a certos fatores considerados “velhos’’, mas que não são parte do padrão exclusivo imposto socialmente.

Em meio a esse contexto revirado, em 2017, surge o documentário “Laerte-se!”, que discorre, com sutileza e delicadeza tão grande que é capaz de deixar um sentimento bom depois que você assiste, sobre a questão trans do ponto de vista da cartunista Laerte Coutinho.

Laerte, é uma cartunista e chargista brasileira, considerada uma das artistas mais importantes na área no país. Desde 2014, publica tirinhas diárias para a Folha de São Paulo,  e desde 2004, se assumiu transgênero e trouxe o debate de gênero a tona, mesmo que visto de um ângulo diferente.

Uma personagem do cartunista Laerte que é discutida durante partes do documentário é Hugo/Muriel (que aparece nas tirinhas dessa matéria). Trata-se de um crossdresser, ou seja,  homem que gosta de se vestir como mulher. Muriel funciona como um alter-ego de Hugo, e brinca com ideias de gênero, sendo um reflexo da própria Laerte,como comentado no documentário.

O documentário, que tem um tom muito intimista mas sem ser invasivo, acompanha a cartunista por alguns momentos de sua rotina, ao tempo que a diretora e idealizadora de tudo, Eliane Brum, assiste e conversa, de uma maneira fluida e gentil com a entrevistada.

Debates interessantíssimos acabam se esgueirando pela conversa das duas, como política, questões sociais, anseios e medos, além de aceitação familiar e vivência diária. 

Todos esses temas debatidos são intercalados por pequenas animações de obras da cartunista e de seu filho, Rafael Coutinho. Há ainda a participação de outras pessoas, nas gravações externas (fora da casa de Laerte),como Rita Lee, que aparece em uma pequena conversa com Laerte, e algumas consultas médicas, além de alguns eventos que a cartunista participou.

No geral,é um documentário muito poético. Disponibilizado na Netflix, é uma boa pedida para quem não tem preconceitos e quer expandir sua visão de mundo – ou só ver as tirinhas de uma das maiores (senão a maior) figuras do cartum brasileiro animadas.

Maschereri

Maschereri

Teórica da Conspiração, tiete de vampiro, trevosa lacrimaníaca e Historiadora (ou quase) nas horas vagas. Cresceu lendo quadrinhos do selo Vertigo e assistindo séries de criminalística e alienígenas. Provavelmente já leu 3/5 das fanfics oldschool de Arquivo X.


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