Mitologia

O eterno poder de Siegfried e dos nibelungos

Autor(a): Bruno Birth | 1 de outubro de 2018 | 12:25

Você já ouviu falar de Siegfried? Do dragão Fafnir e seu saque (o grande tesouro do povo nibelungo)? Se nunca ouviu, saiba que estes são personagens de uma das maiores construções mitológicas da história não só europeia, como mundial (sendo inclusive oficializada como patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 2009). Os nibelungos se tornaram fruto do imaginário das diversas tribos germânicas e daqueles em contato com os germânicos. Com o avanço da cristianização da Europa medieval, pela primeira vez houve uma “formalização” da lenda dos nibelungos, graças ao trabalho realizado por estudiosos do clero que, por meio da compilação de muitas partes da até hoje incompleta obra, criaram uma estrutura literária para a história mitológica, que teria sido concebida em meados do século IV.

Fragmento da Canção dos nibelungos.

Com fortes raízes nórdicas/escandinavas (em razão essencial da ligação geográfica entre a região que hoje conhecemos como Alemanha e os países escandinavos), a lenda dos nibelungos também possui paralelos com acontecimentos reais, como a existência narrativa de Átila, o lendário líder huno, Gunther, governante do reino de Burgund, região hoje conhecida como Borgonha/França (mostrando como a lenda germânica alcançou fronteiras muito maiores que a fronteira geográfica alemã atual), entre outros aspectos que ajudaram a obra a se disseminar em uma Europa cristã mesmo tendo base pagã.

A lendária obra passou por diversos revisionismos cristãos, como as britânicas lendas arthurianas, que também nasceram em meados dos séculos IV e V.
Diversas adaptações e reproduções da mitologia tomaram parte com o passar dos anos, desde seu estabelecimento literário, do século XII em diante. A mais marcante, sem dúvidas, ocorreu no século XIX, quando um intenso e profundo movimento nacionalista daria origem aos diversos eventos que “fundariam” a Alemanha. A mitologia dos nibelungos foi usada pelo compositor de ópera Richard Wagner como combustível antropológico para a criação de uma emoção coletiva em prol do resgate dos valores raciais e culturais do povo germânico. Assim nascia a cultuada ópera O Anel dos Nibelungos, baseada na já citada compilação A Canção dos Nibelungos.

Siegfried Vs Fafnir, primeira versão (trabalho nórdico em madeira) e um revisionismo da artista Rita Micozzi.

A mitologia é, para muitos, apenas um amontoado de histórias minimalistas, que não possuem uma verdadeira importância para, por exemplo, os assuntos do cotidiano contemporâneo. Contudo, ao se analisar de modo parco o papel da mitologia na história da humanidade, não se compreende as muitas manifestações empíricas sociais envolvendo a influência da mitologia. Tal empirismo se traduz no fato de que a construção de muitos países, cujas culturas e estruturas sociais são diversas, advém de raízes mitológicas que no passado permearam, de inúmeras maneiras, as esparsas tribos, que posteriormente iriam unir-se para formar grandes nações.

A realidade cotidiana tribal deu oportunidade ao crescimento e ao desenvolvimento humano, tornando a mitologia (completamente estabelecida nestes círculos sociais) um forte braço da antropologia, ou seja, o estudo das origens do ser humano. A lenda dos nibelungos como ferramenta da formação da Alemanha é um grande exemplo dessa relação. Há estudos que chegam a comparar a relação entre o mito dos nibelungos e a concepção da pátria alemã com a relação entre a criação da sociedade filosófica grega e os épicos escritos mitológicos de Homero (Ilíada e Odisseia).

A narrativa por trás da lenda.
Falemos agora de algumas características da narrativa mitológica. Os nibelungos eram um povo anão de Nilfheim, mundo lendário nórdico; um dos nove mundos sob o domínio de Yggdrasil. A Canção dos Nibelungos conta que o rei dos nibelungos se chamava Alberich, dono de um tesouro imenso roubado de ninfas do Reno (rio que atravessa a Europa de sul a norte, com nascente na Suíça e desaguadouro na Holanda, no Mar do Norte) e o escondido em uma escavação sob uma montanha. Um anel de poder coroava o tesouro que, apesar de esplêndido, carregava uma maldição que se derramaria sobre qualquer um que ousasse possuí-lo. Esse é um dos alicerces da história pois a possessão do tesouro é transitória, sendo que sua essência amaldiçoada se faz presente em todo o desenrolar dos acontecimentos.

Rainha Brunhild no filme “The Curse of the Ring” (A Maldição do Anel), de 2005.

Parte 1.
Em uma das versões da história, Fafnir era um anão pertencente a outra tribo anã, filho do rei anão Hreidmar e irmão de Regin e Otaro. Sua ganância o fez lutar pelo tesouro contra seu pai que, após muitos acontecimentos (inclusive a morte de Otaro), era o possuidor do anel amaldiçoado. Com a ajuda de Regin, Fafnir matou o pai e se tornou o senhor do anel, consequentemente se tornando o possuidor do tesouro, usando magia para transformar a si mesmo em um dragão. Ressentido pelo egoísmo de Fafnir, Regin deu a Siegfried, um guerreiro humano e seu aprendiz, a missão de matar Fafnir. Siegfried então executa a missão, ganhando grandes poderes ao banhar-se com o sangue de Fafnir, o dragão moribundo. Siegfried então sucumbe à cobiça do tesouro e mata Regin, tomando para si o domínio do anel de poder.

Essa parte da história é de grande importância na ópera Der ring des Nibelungen (O Anel dos Nibelungos), de Richard Wagner, embora com algumas modificações, como no caso de Fafnir surgir como um gigante antes de se transformar em dragão.

O casamento de Siegfried e Kriemhild (filme A Maldição do Anel).

As batalhas entre o reino de Burgund e invasores bárbaros nômades é o segundo alicerce da Canção, pois a relação de amor e traição toma papel de grande relevância narrativa.
Siegfried se alia à Gunther, rei de Burgund, por ter se apaixonado pela irmã do rei, Kriemhild, de beleza lendária. Na época Siegfried já havia obtido seus poderes graças ao duelo contra Fafnir. A amizade entre Gunther e Siegfried, construída ao longo de batalhas contra invasores saxões e de outras tribos, se fortaleceu quando Siegfried, por meio de magia de ocultação, ajudou Gunther a casar-se com Brunhild, a poderosa rainha da Islândia que havia jurado se casar apenas com o homem que a derrotasse em duelo.

Apesar de a paz aparentemente reinar em Burgund, Brunhild sempre desconfiou de que havia algo de errado por trás de seu casamento com Gunther; e Hagen (vassalo de Gunther), alimentando grande ganância pelo tesouro de Siegfried, passou a estudar o herói para descobrir suas fraquezas. Não obstante, conflitos entre Kriemhild e Brunhild tornaram o clima no reino de Burgund tenso após Kriemhild, em um acesso de raiva, revelar o segredo da derrota matrimonial de Brunhild.

Hagen, sempre atento aos acontecimentos, percebe a grande chance de tornar Siegfried um inimigo e começa a envenenar Gunther contra Siegfried. Mesmo que a princípio o rei de Burgund tenha resistido a trair Siegfried, acabou aceitando a proposta de Hagen. Então, em uma emboscada após uma caçada combinada para ser uma farsa, Hagen explora a única fraqueza de Siegfried, uma pequena área das costas do herói, e o mata com um golpe de lança.

Hagen atira o tesouro dos nibelungos no rio Reno.

Essa história é contada, com algumas adaptações em um filme britânico de produção modesta, do ano de 2005, chamado The Curse of the Ring (A Maldição do Anel). Alguns atores que se tornariam bem famosos, como Robert Pattinson, fizeram parte do elenco da adaptação cinematográfica.

Parte 2.
A segunda parte da Canção dos Nibelungos é marcada pela vingança de Kriemhild, que cultivou intenso ódio por Gunther e Hagen, após o covarde assassinato de seu amado marido, que até então havia agido pelo bem e honra do reino de Burgund. Uma aliança entre Kriemhild e os nibelungos, que decidiram declarar guerra contra Burgund, ameaçava o reino de Gunther; contudo, o fiel vassalo Hagen interrompeu a empreitada, roubando o tesouro amaldiçoado de Siegfried e lançando-o no rio Reno.

A batalha dos burgundos contra os hunos (a vingança de Kriemhild).

Kriemhild, completamente possuída pelo ódio, então arquitetou uma vingança mortal ao aceitar a proposta de casamento de Átila, o poderoso líder dos hunos. A nova rainha dos hunos então incitou Átila a atacar e dominar Burgund. Hunos lutaram ao lado dos revoltados nibelungos e, após uma série de eventos, a saga termina com o lamento de Àtila pela morte de Kriemhild (e seu filho com Átila); a completa destruição dos nibelungos e burgundos (com a morte de Hagen e Gunther).

Graças à amalgama de acontecimentos reais históricos e lendas mitológicas presentes na Canção como um todo, ainda existem estudiosos que buscam escarafunchar o rio Reno em busca de algum vestígio arqueológico da existência do lendário tesouro de Siegfried, sem sucesso algum até o momento. Como já foi dito, a saga dos nibelungos já passou por diversas adaptações, sendo ferramenta cultural de imenso valor social. É um grande exemplo de como o poder da literatura mitológica influencia não só em caráter pessoal como na coletividade humana em busca de uma identificação em comum.
Se você gosta de história e não conhece a fundo o eterno poder de Siegfried e dos nibelungos, torne esse artigo um convite para pesquisas mais profundas.

Referências
“Tesouro dos nibelungos: lenda e parte da história da Alemanha.” – Deutsche Welle.
“A Canção dos nibelungos – aproximações à obra.” – Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos.
“The Curse of the Ring.” – filme britânico de 2005.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


Deixe o seu comentário!

Pular para a barra de ferramentas