Ensaios

O Maravilhoso mundo das Fanfics – parte I

Autor(a): Maschereri | 22 de janeiro de 2019 | 19:57

Benditas fanfics. Malditas fanfics. Bem escritas, mal escritas, impossíveis, triviais… As fanfics ( ou só fics  mesmo) tem ganhado um espaço absurdo na contemporaneidade internética em que vivemos hoje em dia. Mas se engana quem pensa que as fics  são invenção nova.

Criado a partir da junção dos termos fan (fã) e fiction (ficção), as fanfics tiveram seu boom  a partir da necessidade de fãs de expandir seus universos preferidos e colocar seus personagens prediletos em situações que não aconteceriam no cânone ( ou seja, no que se diz respeito ao que aconteceu realmente) ou aconteceram de maneira que deixou a desejar, como por exemplo, a morte de Sirius  Black em Harry Potter e a ordem da Fênix, ou o fato do Elliot e da Olivia da franquia Law & Order nunca terem formado um casal.

Sua mãe provavelmente “shippava” esses dois, ou você mesmo ‘shippava”.

Como um universo a parte que permite diversas intervenções criativas, as fics já frequentaram diversas partes do que chamamos de internet. Mesmo que existam registros de pessoas reescrevendo seus folhetins preferidos com fins mais interessantes ainda na era vitoriana, o começo das fanfics como conhecemos se dá mais ou menos na década de 70, quando fanzines começaram a publicar histórias escritas por fãs sobre Star Trek, reimaginando seus episódios.

Com a popularização da Internet e o surgimento dos saudosos fóruns, em poucos anos, séries como Arquivo X já acumulavam milhares de fanfics (Inclusive, alguns fãs de Mulder e Scully e companhia criaram um mecanismo de pesquisa chamado Liminal no qual você encontra fics datando da década de 90 pertencentes a diversos fóruns e blogs!).


O recorde de relacionamento mais enrolado da TV é desses dois : 11 temporadas de chove e não molha.

Hoje em dia, no que podemos considerar a terceira leva massiva de ficwriters, as fics sobre bandas e cantores famosos (principalmente k-idols) lideram em quantidade enquanto categoria ampla, uma vez que as redes sociais, em especial o Tumblr,  permitiram uma expansão ainda mais absurda em relação a comunidades de suporte de fãs.

Atualmente, existem diversos sites que servem unicamente como arquivo/fóruns de fanfics, variando em quantidade e regras, sendo um dos maiores o fanfiction.net ( que só na categoria “Harry Potter”, a maior do site, tem cerca de 798 mil histórias), que por exemplo, não permite trabalhos contendo personalidades reais, nem que sejam classificados como para maiores de 18 anos (vide a limpeza que foi feita há alguns anos atrás).

Na categoria livros, a saga Harry Potter é líder absoluta

Já o Archive of Our Own, carinhosamente apelidado de AO3, que é um site mais regrado e que funciona exclusivamente como arquivo e não como fórum (o que legalmente faz uma tremenda diferença) libera apenas uma certa quantidade de convites para criação de perfil por dia, mas aceita todo e qualquer tipo de material de fã, funcionando a base de um sistema de tags e avisos.  As diferenças não param por aí: Enquanto o FF.net se mantém através dos anúncios que apresenta, o AO3 é totalmente sem fins lucrativos, e funciona a partir da doações mensais feitas pelos usuários.

Existem ainda muitos outros sites mistos, que permitem a publicação de trabalhos autorais e fanfics, como o Wattpad ( que conta com tantos trabalhos quanto o Ff.net, porém, contando os trabalhos autorais ) e o Radish, e alguns sites de fanfics Brasileiros, como o Nyah! e o Spirit.   

Gráfico que representa, em milhões, o número de trabalhos de fãs hospedados nos sites Ao3, Ff.net e Wattpad

Mas e os direitos autorais,como ficam?

Existem várias posturas diferentes de autores famosos. Muitos autores, ao exemplo de Anne Rice, criadora das Crônicas Vampirescas, exigem a retirada de trabalhos que envolvem seus personagens, o que acarreta processos e dor de cabeça para os sites, que a exemplo do FF.net, nem mesmo possuem categorias para obras de tais autores, mas permite (mesmo que sorrateiramente) trabalhos postados sob classes mais abrangentes (como nesse caso, na tag “vampiros”, se você tiver tempo e paciência, consegue achar algo sobre as aventuras de Louis e Lestat). Estes autores acreditam que o trabalho dos fãs serve apenas para desvalorizar ou utilizar indevidamente  suas criações (no caso, obtendo “lucro pessoal” sobre personagens que não os pertencem). Porém, existem outros autores, como o próprio Neil Gaiman, que não só encorajam a prática das fanfics, como também escrevem eles mesmos (Sim! Neil Gaiman escreve fanfic, minha gente! Ele comentou isso no twitter há algum tempo atrás.)

Existe ainda, a questão do incentivo que as fanfics representam. Hoje em dia, temos uma nova geração de escritores que foram ficwriters mas migraram para trabalhos autorais, mesmo que por razões financeiras, como é o caso da Escritora E. L. James, aquela do 50 tons de Cinza, que começou escrevendo fanfics de Crepúsculo (reza a lenda que 50 tons de Cinza era uma fic de Crepúsculo, que devido ao grande sucesso sofreu algumas alterações e foi publicada em formato de livro). Em alguns anos, acredito que a porcentagem de escritores que começaram como ficwriters aumente exponencialmente, visto a crescente que esse universo tem apresentado nos últimos anos.

Mesmo assim, ainda existe um certo receio, quase que um estereótipo quando o assunto é fanfic, o  que acaba criando aquela ideia de que é algo ridículo feito por pessoas com muito tempo nas mãos, ignorando totalmente questões relacionadas a processo criativo e desenvolvimento de escrita, além da divulgação de suas  mídias de origem.

Escrever fanfic vem se tornando coisa séria, o que fica mais do que comprovado pelas premiações oferecidas por alguns sites em seus concursos internos, além do alto nível de escrita e pesquisa dos ficwriters atuais, que se dedicam a escrever seus trabalhos tanto quanto um autor se dedica a um trabalho autoral.

” Desapontado com uma Serie de TV? Livro? filme? Se você ainda ama seu fandom descubra as fanfictions hoje e faça a história do seu jeito!’

Por experiência própria, o mundo das fanfics pode ser extremamente produtivo. Falo isso do ponto de vista de alguém que passou os últimos 11 anos envolvida nesse meio, traduzindo, betando e adaptando trabalhos. Vi muitos trabalhos virarem livros e muitos escritores tentarem seus primeiros passos por esse mundo louco que é a internet – e tenho certeza que ainda verei muitos outros mais. 

Afinal, nos últimos anos, a mídia digital tem se expandido drasticamente, o que afeta e muito a vida dos fãs da cultura nerd. Por que não usar isso a favor das fanfics também?

Maschereri

Maschereri

Teórica da Conspiração, tiete de vampiro, trevosa lacrimaníaca e Historiadora (ou quase) nas horas vagas. Cresceu lendo quadrinhos do selo Vertigo e assistindo séries de criminalística e alienígenas. Provavelmente já leu 3/5 das fanfics oldschool de Arquivo X.


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