Ensaios

Por que o racismo perdura?

Autor(a): Bruno Birth | 19 de novembro de 2018 | 09:00

Ultimamente tem se intensificado o desdém, o menosprezo correlação às lutas raciais, como se de algum modo desconhecido a sociedade já tivesse alcançado a igualdade racial. Os grupos preconceituosos a espalhar uma visão de que lutas raciais são na verdade “vitimismo”, além de traçarem uma linha de pensamento que descarta qualquer análise histórica, são responsáveis por estabelecer o conformismo ao status quo da sociedade, como se a estrutura na qual qualquer indivíduo vive fosse completamente possível de ser alterada por ele mesmo, bastando apenas “força de vontade”. Nesse aspecto, ser afrodescendente, por exemplo, não é desculpa para insucesso na sociedade meritocrata.

À PROCURA DA FELICIDADE – O filme usado como exemplo por todo meritocrata (que considera a meritocracia uma verdade universal, quando na verdade a meritocracia se baseia em exceções por falta de oportunidades).

O descaso de massiva parte da elite branca racista às culturas afrodescendentes não é a fonte desse fenômeno pois tal atitude segregadora da elite não é algo novo, e sim histórico. A desinformação da massa é, na verdade, o grande catalisador para que essa tentativa de diminuição da importância das frentes antirracistas ganhe espaço, o que ocorre com fervor no campo das redes sociais.

Nesse verdadeiro reino bizarro das meias verdades se espalham frases simplórias como “isso é passado, hoje é diferente”, “quem quer consegue”, ou até mesmo afirmações que aparentemente carregam mais propriedade (só aparentam) como “historicamente não existiu escravidão só de negros, por que os negros reclamam tanto?”.

Esse cenário controverso e pouquíssimo profundo só alimenta informalidade e preconceito, dificultando o avanço das ideias progressistas e de cunho humanista. Mas não vamos só apontar o que está errado nesse discurso, vamos desconstruí-lo para que você possa entendê-lo de uma outra forma.

NEIL DEGRASSE TYSON – Raro caso de sucesso negro que não seja no campo musical ou artístico. A série “Cosmos”, apresentada pelo astrofísico, é citada em outro artigo do “Sem Cultura”.

A luta por igualdade racial é uma luta por respeito às culturas afrodescendentes, uma luta por direitos e, acima de tudo, oportunidades iguais a todas as pessoas negras ou pardas. Apesar de não existir nenhuma lei expressa que diga, por exemplo, “nenhum afrodescendente deve presidir uma empresa”, o acesso do negro às plataformas de alto nível da sociedade é muito mais dificultoso do que o acesso do branco. E o que faz disso uma realidade e não apenas palavras jogadas ao vento é justamente a estrutura social na qual estamos inseridos, que, de modo velado, separa aqueles que devem estar em posição de poder e aqueles que devem servir. Para melhor visualizarmos o contexto social, vamos entender o contexto histórico.

Dentre os diversos tipos de escravidão, se destacam dois tipos com grande presença na história da humanidade: a escravidão política e a escravidão ideológica.
Escravidão política: se desenvolvia a partir do domínio de territórios por tiranos imperiais ou monárquicos, que passavam a estabelecer o usufruto dos recursos humanos e materiais dos territórios incorporados aos seus impérios e reinos. Desse modo, os dominados resistentes (aqueles que se recusavam a pagar os tributos demandados pelos dominadores), ou mesmo os que não tinham nada além da própria vida a oferecer aos dominadores, se tornavam escravos.
Os exemplos desse tipo de escravidão são muitos e em todos os cantos do globo: Império Romano, Império Persa, China Imperial, Egito Antigo, etc.
Escravidão ideológica: se desenvolvia a partir da separação de povos por uma suposta diferenciação natural de importâncias essenciais desses povos, assim criando níveis de superioridade, criados pelos opressores. Esse tipo de escravidão é uma evolução da escravidão política (em defasagem na idade média) pois trazia novos argumentos para a vil prática. O homem branco europeu logo se colocou acima como raça (usando as escrituras sagradas, inclusive), quando em contato com os outros povos como indígenas e africanos.

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO – O uso da bíblia para justificar a escravidão foi largamente aceito pelas sociedades escravocratas. Assim como quando surgiu a pseudociência do darwinismo social.

“Mas por quê foram os europeus os colonizadores? E Não outros povos? Não seriam eles realmente superiores?”

Essa é uma pergunta perniciosa que ouço muito. São muitas as sólidas hipóteses que podem responder a esse questionamento, por análise histórica, antropológica, dentre vários outros aspectos.
Eis alguns aspectos acerca da construção das civilizações europeias (muito antes das grandes navegações em si) que viriam a se tornar os colonizadores:
Geográfico – A Europa não é um continente rodeado por mares, como América ou África, tornando alta a concentração de pessoas vindas de diversas localidades e partindo para diversas localidades, possibilitando grande tráfego de cultura, conhecimento e disputas territoriais sangrentas.
Climático – A Europa sempre foi um local muito hostil em suas trocas de estações, obrigando os residentes a cada vez mais melhorarem seus conhecimentos de agropecuária para sobreviverem.
Militar – Como dito anteriormente, o trânsito de muitas pessoas e culturas diferentes, aliado ao fator de sobrevivência em situações hostis, foram realidades que trataram de colocar os povos da Europa em choque o tempo inteiro, seja por recursos ou defesa de território, fazendo os europeus evoluírem cada vez mais suas técnicas de guerra e assassinato.

GUERRA DOS CEM ANOS – O maior embate da história da Europa exemplifica o estabelecido cotidiano de combate do continente.

Todas as características supracitadas se desenvolveram de modo, digamos, mais brando (ou pelo menos muito diferente) nas outras regiões do mundo, o que foi crucial para o desenvolvimento dos povos desses locais sob outras óticas e compreensões da natureza, como na África. Quando houve o contato entre os europeus e africanos, esses povos fatalmente se encontravam em panoramas culturais diferentes, visões de mundo completamente opostas. O que não quer dizer, de modo algum, que os europeus eram seres superiores. Europeus e africanos eram apenas diferentes.

Os europeus trataram de agregar valor religioso e eugênico às suas ideologias de povo civilizado (desconsiderando qualquer modelo de sociedade que não o modelo europeu) e destruíram as culturas africanas, que foram consideradas inferiores. Assim, se sucedeu a escravidão de negros, que perdurou por longos três séculos.

Bom, lembra da máxima “para se entender o presente é preciso entender o passado”? Essa frase vale perfeitamente para as lutas raciais da atualidade pois a escravidão política é hoje vitrine histórica enquanto a escravidão ideológica exerce grande influência na sociedade contemporânea. Como? Vamos lá.
Quando a escravidão chegou ao fim, milhões de negros analfabetos e sem profissionalismo civil ganharam sua “liberdade” em uma sociedade com estrutura já criada e estabelecida. Ora, o compromisso de personas influentes como Princesa Isabel ou Abraham Lincoln era o de dar liberdade aos afrodescendentes e não de se criar uma nova sociedade do zero, que comportasse essa abolição em massa, com reformas de educação e poder capital. E digo isso não com menosprezo às ações de Lincoln, por exemplo, e sim como uma constatação prática.

LINCOLN – Alguns estudos históricos apontam evidências de que ele queria mais que apenas a abolição da escravidão, o que não teria sido possível graças à imensa oposição a suas ideias.

O que aconteceu aos negros libertos pelo fim da escravidão foi a obrigação de venderem sua mão-de-obra para seus antigos senhores brancos a um custo baixíssimo, a fim de apenas sobreviverem no “novo mundo”. Os novos patrões pagavam o mínimo para a alimentação dos novos empregados, assim como os antigos senhores proviam o mínimo de alimentação para os antigos escravos. Imagine a ideia de ascensão social em um contexto como esse.
Mas você não precisa ir muito além em sua imaginação, a escravidão acabou ontem. Você, negro ou pardo, saiba que seu tataravô (trisavô, ou mesmo bisavô) foi escravo, ou seja, você é descendente direto de pessoas completamente segregadas, relegadas à informalidade social. E mais! A Atual elite (que é branca) e detém a massiva parte do capital global, descende diretamente daqueles que escravizaram os seus descendentes, caro leitor negro e pardo.

Dito isso, saiba que a estrutura da sociedade de ontem passou por poucas gerações para ser a estrutura da sociedade de hoje. Vide o livro “Kindred- Laços de Sangue”, já citado em artigo do Sem Cultura (mais sobre), e que mostra como são praticamente iguais as relações sociais antigas e contemporâneas, que guardam profundo preconceito e impedem uma grande alteração na desigualdade racial.

SELMA – Afroamericanos lutando por simples direitos há menos de meio século atrás.

Faça um exercício: Liste todas as áreas de atuação na sociedade que você conhece; depois liste as personalidades que encabeçam essas áreas; separe quantas personalidades são negras e quantas são brancas. Você fatalmente descobrirá que os negros de sucesso que você conhece estão concentrados no ramo artístico ou musical pois estes núcleos de entretenimento são ligeiramente mais abertos e, como falei anteriormente, os afros de hoje são culturalmente herdeiros da falta de oportunidade de educação dos negros alforriados, que não tinham qualquer chance de se dar ao luxo de pensar em outra coisa que não trabalhar excessivamente afim de comer o mínimo para não morrer.

Hoje, depois de muitas medidas progressistas, o afro se encontra em situação onde é preciso trabalhar para comer para depois pensar em estudar, se possível, já que as oportunidades são escassas. São ínfimos os exemplos negros, como o supracitado Neil deGrasse Tyson, nas outras inúmeras áreas dominadas por brancos.
Isso tudo mostra que não existe, de forma nenhuma, igualdade racial. Por esses motivos (e tantos outros que esse artigo em resumo não comporta), diminuir a importância das lutas raciais a termos como “coitadismo” é uma atitude, no mínimo, cretina e cínica.

Imagem de um presidente negro brasileiro.

A periferia não transborda negros e pardos porque negros e pardos são incapazes. A elite não é dominada por brancos porque brancos são mais capazes. Os afros estão na periferia porque a periferia é filha da senzala e os brancos estão na elite porque a elite é filha da casa grande.
Experimenta falar de meritocracia agora.

Referências: 

Livro “Kindred- Laços de Sangue”, de Octavia Butler.

Livro “O Que é Racismo Estrutural?”, de Silvio Almeida.

Livro “Sociologia Pré-científica”, de Cristina Costa.

Artigo “Lincoln e a escravidão- Nem tanto ao céu, nem tanto à Terra”: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Lincoln-e-a-escravidao-Nem-tanto-ao-ceu-nem-tanto-a-terra/5/27274

Artigo “Cartas entre Karl Marx e Abraham Lincoln”: https://lavrapalavra.com/2017/09/04/cartas-entre-karl-marx-e-abraham-lincoln/

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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