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Por que os Super-heróis não são Revolucionários?

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Autor(a): MathVas | 12 de fevereiro de 2019 | 11:55

A ideia desta matéria veio depois de assistir ao trailer de Vingadores Ultimato. Eu já acompanho o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) desde que saiu o primeiro Homem de Ferro. E depois de todos estes anos – vendo heróis que tinham tanto poder em mãos, lutando contra alienígenas, desenvolvendo tecnologias de outro mundo e ganhando o carisma de pessoas ao redor da Terra – foi quando parei para perceber que, no final das contas, nada mudou. A fome não foi erradicada, a desigualdade não acabou, o racismo está mais presente do que nunca, a perseguição a homossexuais e transexuais continua gerando assassinatos e mais dores.  Os oprimidos continuam sendo oprimidos.

Super-heróis da Marvel Comics

Foi então que percebi que super-heróis não são revolucionários. E que a arte tem muito a dizer sobre a nossa sociedade.

            Como o quadrinista e produtor de cinema Jeph Loeb e o filósofo Tom Morris disseram, os heróis “buscam a justiça, defendendo os oprimidos, ajudando os indefesos e vencendo o mal com a força do bem”. E apesar dessa batalha homérica, as coisas nunca mudam. Os oprimidos nunca deixam de existir e, como o escritor José Saramago disse uma vez, “as injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra”.

A fome afeta mais de 820 milhões de pessoas em todo o mundo

            Percebendo estes grandes problemas nunca solucionados pelos heróis, foi que comecei a investigar os motivos deles não serem revolucionários.

            O primeiro motivo é claro. Eles não querem mudar o mundo, transformá-lo em um mundo onde caibam vários mundos – no palavreado dos zapatistas. Aceitam o mundo como ele é, e, apesar de perceber os grandes problemas que este mundo cria, suas propostas sempre foram de buscar reformas e melhorias dentro do próprio sistema. Talvez, partindo desta perspectiva, podemos dizer que são reformistas.


Mulheres zapatistas, em sua grande maioria indígenas, defendendo a autonomia de seus territórios, no sul do México, e buscando mais dignidades para seu povo.

           O segundo motivo requer uma análise mais ampla. Os super-heróis mundialmente conhecidos são, em sua esmagadora maioria, frutos de mentes criativas e de quadrinistas do Estados Unidos. Ou seja, este super-herói que tanto consumimos como entretenimento e filosofia de vida partem de uma cultura regional e bem localizada, proposto por pessoas em sua grande maioria homens, brancos e héteros, que muitas vezes não vêem os problemas do mundo com os olhos dos oprimidos, injustiçados, pobres e marginalizados.

Nesse sentido, é muito importante frisar que esta cultural regional – por conta de diversos fatores que faz o mundo consumir em larga escala as produções norte-americanas – amplia-se numa escala mundial, fazendo desta forma de heroísmo e seus valores algo hegemônicas. Ou seja, achamos que ser herói é apenas quando expressamos e praticamos esses valores que são regionais e bem localizados, ou seja, dos Estados Unidos.


Superman, ícone de muitos valores estdunidenses

           É claro que muitas dessas pessoas que compuseram e perpetuam todo este processo hegemônico, como os ilustradores e desenhistas de quadrinhos – principalmente durante a época de ouro dos quadrinhos mainstream dos Estados Unidos, década de 1960 – foram constantemente desmerecidos em seus trabalhos, viviam em situações financeiras drásticas e provavelmente com um grande sentimento de indignação pela falta de reconhecimento profissional. Por conta disso, cabe ressaltar que as grandes editoras, como a Marvel Comics e a DC Comics, perpetuavam esta prática injusta para buscar, em grande parte, o lucro.

           Partindo disto é que percebemos que até mesmo a “Casa das Ideias”, como é conhecida a Marvel, busca homogeneizar uma forma de pensamento, visando, obviamente, atingir um público alvo, atender ao gosto do público, lucrar com isto e transmitir certos valores, que, apesar das grandes mudanças editorias que elas vêm alcançando, continuam presentes nos super-heróis de hoje.

Batman e sua equipe

Em outras palavras, padronizar o ponto de vista dos heróis e suas histórias partindo dos seus próprios valores. E estes valores, para reforçar o primeiro motivo, é justamente de manter um sistema vigente, buscando apenas reformá-lo ou trazer as melhorias necessárias para ele se tornar mais “humano”. Nesse sentido, e que fique claro, os super-heróis estadunidenses nunca poderiam se tornar revolucionários porque nunca tiveram esse anseio. É justamente por conta desta lógica que é necessária uma análise mais aprofundada.

O terceiro motivo é um pouco mais denso em sua explicação, mas igualmente enriquecedor. A lógica de não ser um revolucionário, nem mesmo nos pensamentos, gera uma armadilha muito perigosa. Os super-heróis são cegos aos problemas fatalistas e imediatos do mundo. Eles buscam dar fim as consequências de uma estrutura econômica, política, cultural e social; não a de suas próprias causas – é como cortar o galho de uma árvore envenenada, mas nunca arrancá-la pela raiz. Por isto que nunca deixam de existir oprimidos e pessoas injustiçadas em suas histórias.  Por isso a fome, a pobreza, as perseguições a homossexuais e transexuais e a desigualdade nunca deixam de existir em suas histórias (isso quando são levadas em consideração).

Até mesmo quando é buscado um revisionismo e reflexões mais profundas sobre o que é ser um herói e suas contradições, como Alan Moore e Frank Miller quiseram trazer à tona em Watchmen e Cavaleiro das Trevas, respectivamente, acaba por caírem nessa mesma cegueira moral, pois suas reflexões não levam em consideração outros modelos de heroísmo, fazendo, por assim dizer, apenas uma autocrítica – o que, diga-se de passagem, é muitíssimo importante!  E afirmando uma vez mais que super-heróis não são, muito menos querem ser, revolucionários.

Personagens de Watchmen

Contudo, estas autocríticas, tanto de Moore quando de Miller, apenas apontam para o problema do heroísmo, afirmando que no final das contas o ser humano é terrível, sua sociedade é horrível e o mundo não tem esperança de mudar – porque o problema somos nós. E você, tão ferido pela sua sociedade, pode muito bem acreditar nesse ponto de vista, afinal, ela é a sua realidade. O que gera o maior problema de todos. Você afirma que esse mundo, da forma como o vemos ele hoje, é o único mundo possível. Não há outra alternativa senão reformas, ou até aceitar que muitas pessoas continuarão sofrendo com isso porque todos somos maus.

E as coisas não podem ser assim. Pois todos esses valores são produções estadunidenses e até europeias e não podem, nem devem ser, a única forma de enxergar o heroísmo, o mundo e as pessoas ao nosso redor. Ou seja, o heroísmo como o vemos hoje é, talvez, o mais perigoso de todos os valores.

Ele nos torna cegos e ávidos apenas para atingir as consequências do problema, nunca o problema em si, que só poderia mudar através de mudanças estruturais e significativas no interior de cada um de nós.

As Curdas não apenas combatem o Estado Islâmico, como buscam independência para seu povo e um espaço para as mulheres!

É claro que eu ainda gosto muito dos super-heróis, de ver suas histórias e buscar em suas lutas, responsabilidades e dilemas pessoais algum norte em minha bussola moral. Mas é muito importante compreender as limitações do heroísmo hegemônico – estadunidense –, que seus valores não são e nem devem ser universais, como busquei esclarecer ao longo do texto todo. Que de fato, se aceitarmos puramente todos os seus valores, os problemas, como em todas as histórias de heróis, nunca vão deixar de existir. Sempre haverá oprimidos e injustiçados – e você não fará nada, nem vai querer fazer algo, para mudar isso.

Se deixarmos de lado a grande necessidade de buscarmos outras formas de heroísmo, e isso é, aceitando o modelo hegemônico, eu prefiro ser revolucionário do que herói.

Palestino buscando uma melhor vida para seu povo, sabendo que se calar não é uma opção.

ENSAIO BIBLIOGRÁFICO (o que eu li): Muito bem, eu li dois livros especificando a produção de quadrinhos de super-heróis do Estados Unidos, o primeiro é Quadrinhos: história moderna de uma arte global, escrito por Dan Mazur e Alexandre Danner. O segundo foi Marvel Comics: a história secreta, escrito pelo jornalista Sean Howe. Para buscar uma base de apoio sobre os valores do super-herói li Super-heróis e a Filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático, uma coletânea de artigos organizados por Matt Morris e Tom Morris. Li também várias histórias de super-heróis, o que compôs toda a minha análise. A respeito da questão revolucionária, não é nada em relação à fronteira com os super-heróis. Em princípio, as séries científicas e de aprendizado são revolucionárias, o que consiste em uma série de material para o estudo, que é sem dúvida não é caberia aqui. Fica para futuros textos!

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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