Filmes

Jogador N°1: A Máquina de Referências

Literatura
Autor(a): Leonardo Gianetti | 13 de setembro de 2018 | 11:30

Cultura Popular, Cultura Geek

Hoje existe um grande mercado para a Cultura Popular. Mas afinal o que é cultura popular? É qualquer forma de manifestação ou expressão de um grupo, e/ou nação, e/ou população. E dentro dessa cultura temos uma categoria que tem aumentado conforme os anos: A cultura Geek. Esse “pequeno” grupo tem se espalhado pelo mundo todo. E como é sua forma de expressão? Através de quadrinhos, jogos, livros, musicas, entre outros.

Batgirl, Spawn, Coringa, Gremin

E podemos acompanhar esse crescimento a todo o momento. Atrevo-me a dizer que estamos numa época onde relembramos a origem desta cultura. Remasterização de jogos antigos, referências em filmes novos baseados nos anos 80 e continuações lançadas 20 anos depois da primeira aparição. Os anos dourados estão mais brilhantes e vivos com o grande desenvolvimento da tecnologia. Mas antes de começar a dizer sobre o livro e o filme que deixam bem claro essa evolução, irei explicar sobre referencias e eastereggs.

O conceito de easter-eggs vem do inglês, traduzindo ao literal, Ovos de Páscoa. Diferente de uma referencia, os easter-eggs tem esse nome por causa da  ideia de procurar algo propositalmente escondido. Enquanto referencias, eles são menções ou aparições de personagens e objetos no cenário incluído. Este conceito teve seu início em jogos que abaram se popularizando e crescendo cada vez mais, tanto que o enredo no filme quanto no livro Jogador N° 1 giram entorno disso. 

O Livro

Ernest Cline consegue de maneira épica juntar tudo isso e mais um pouco em seu livro Jogador N° 1. Seu Grande conhecimento da bela arte do cinema, jogos e música, consegue trazer um clima de nostalgia das décadas anteriores ao século XXI, sempre com uma enorme animação e empolgação ao mencioná-las em sua narrativa de um futuro próximo. Ao ler seu livro, deixando as lembranças e imaginação voarem soltas, podemos nos sentir realmente dentro do OASIS, a realidade virtual criada para vivenciar essa experiência incrível. Porém, sua enxurrada de referências pode deixar o leitor até perdido, sem entender o contexto nem a piada. Claro, para resolver isso é bem rápido hoje em dia. A maioria das menções em seu livro é de anos 70, 80, 90, e um pouco beirando os anos 2000. Parece que seu intuito é reviver estas época.

Anorak, Avatar de James Halliday em OASIS

E para reviver esses momentos dourados, Cline pensou o seguinte, “E se existir um jogo de mapa aberto onde podemos ser e jogar com quem e onde quisermos, literalmente”. E foi assim que OASIS surgiu, e a realidade virtual ao seu favor só ajuda a complementar na imersão do mesmo. O próprio mapa de seu jogo dentro do livro já é baseado em um Cubo-Mágico, e isso enaltece a nostalgia.

Mas todo universo novo, precisa-se de um herói, e nada melhor que um garoto com uma história trágica sem nada na vida, mas com a primeira letra do nome e sobrenome iguais (Essa é a receita de bolo de herói mais comum que conhecemos). E assim surgiu Wade Watts. Sua personalidade sem muita esperança, mas com ânsia de conhecer seu ídolo (James Halliday), faz com que o leitor se identifique com ele. Seu crescimento na confiança e agilidade nos deixa cada vez mais ansiosos para a conclusão. Porém, o mundo criado por Cline fora do OASIS não chega ser muito atrativo, pois o universo virtual é tão fascinante que o real se torna sem graça e esquecido, digamos uma pequena lição de moral, mas este não é seu foco.

O autor sabe exatamente o clima que procura, proporcionando momentos de alegria, nostalgia (principalmente), ansiedade tanto para o clímax quanto para um pequeno desespero, e um toque de romantismo. De forma bem planejada e inteligente Ernest conseguiu utilizar seu conhecimento da Cultura Geek e fez com que sua escrita entretenha o leitor. E não se preocupe ao não entender alguma referência, ele consegue dar uma pequena explicação sobre o que se trata.

Direitos Autorais

Algumas questões ficam no ar, nenhuma relacionada à história. Questões do tipo, como ele conseguiu os direitos para utilização de tantos personagens, musicas e marcas em seu livro?  Menções são permitidas de serem usadas, apropriação de personagem e outras imagens são permitidas se esta utilização se mostra necessário ou importante na historia contada. Não é preciso correr atrás de autorização, mas muito cuidado é sempre pouco. Além de ser proibido o plagio, é claro. Imagine se o protagonista fosse parecido com o Deadpool só por causa do primeiro nome, “Wade”. Este já seria proibido e negado, de acordo com a legislação norte-americana. Em caso desses, são feitas algumas analises: se a utilização pode afetar o valor ou trabalho do autor, se a proporção da semelhança se é feito a fins lucrativos próprios. Em livros parece ser mais fácil que em filmes, tanto que o querido Steven Spielberg,diretor do filme, correu contra um tornado de autorizações para que a essência da obra não se perdesse.

Filme                                                                                                             

DeLorean do De Volta Pro Futuro

E vou lhe dizer, Spielberg conseguiu com maestria transpor esta ideia de Cline com facilidade, utilizando tudo que pode para entregar o prometido, uma nevasca de referencias por todo o filme. Suas adaptações na historia se tornam aceitáveis e bem recebidas, pois a essência se manteve. Um universo montado em cima de nostalgia e jogos. Os personagens se mostram, a meu ver, com mais presença e mais memoráveis (o visual do Daito ficou muito marcado pra mim). Suas cenas épicas deixam tudo mais espontâneo e interessante, e a resolução dos puzzles é simples e rápida, compreensível, mas não chega a diminuir a história. Até hoje ainda aparecem novos easter-eggs. A atuação dos atores é satisfatória, nada que passe do normal ou algo muito excepcional, os únicos que eu digo que conseguiram dar “vida” aos seus personagens foram o Mark Rylance, interpretando James Halliday, ninguém menos que o falecido criador deste universo virtual, e I-R0k, interpretado por T. J. Miller, pois sua participação no filme foi mais significativa que no livro. Sua ambientação é muito boa e fiel, as “Pilhas” onde mora o protagonista são exatamente como descreve no livro, até melhor. Os cenários dentro do jogo também são muito bons, eles deixam a sensação de estar dentro do jogo.

Entendeu a Referência?

A quantidade de referências chega a ser absurdo, é provável que entre no Guinnes Book com o maior número de referências em uma longa metragem. Em 10 minutos podemos ver Minecraft, Batman, Marvin o Marciano, Flash, Robocop, Star Trek, Jason Voorhees, Duke Nuken, Doom, Halo, Freddy Krueger, StarCraft, e muitos outros (muitos outros ainda é pouco). Uma mescla magnífica de jogos, filmes, animes, séries, e músicas, deixa o Jogador N°1 ainda mais empolgante. Pense que incrível seria se pudéssemos ser o John Wick enfrentando Titãs de Shingeki no Kyojin, montado em um Megazord Força Animal, ao lado do Homem-Formiga. Ou então Sherlock Holmes resolvendo puzzles de God of War, com a ajuda de Jimmy Neutron, Ozzy Osbourne e Zé Bonitinho. Isso mesmo, tudo pode ser possível, é preciso apenas jogar.

Por isso para mim este mundo de Ernest Cline é um dos meus favoritos, e melhor ainda, em realidade virtual. Imagine sentir em primeira pessoa a adrenalina que Rocky sentiu ao lutar contra Apollo Creed, ou o desespero de ser sequestrado por Kevin Crumb em Fragmentado. Quem sabe este seja o futuro dos jogos e filmes. Ao invés de irmos ao cinema, usaremos óculos VR para nos adentrarmos no filme. Claro, isso é apenas uma especulação, mas convenhamos, seria incrível!

Concluindo

O intuito deste texto é não só passar minha opinião sobre o livro e o filme, mas eu gostaria de dizer que não é necessário entender todas as referências, não é necessário pesquisar tudo que aparece no filme. Pode-se aproveitar muito bem o filme sem ter vivido nos anos 80. Eu considero o Jogador N°1 como uma visão da infância e criatividade de um homem, de uma maneira bem bolada e cheia de energia. Uma visão que eu me identifiquei. Todos podem demonstrar sua visão de valores de diversas maneiras, com a letra de um rap, com a tinta de uma pintura, com um grito de protesto. Somos todos sujeitos a vários tipos de cultura, vários tipos de ideias, cabe a nós respeitar e ter empatia para entender. Sabe, eu gosto muito da frase que aparece em Jogo do Exterminador (Ender’s Game), que gostaria de finalizar com esta frase, “Para derrotar meu inimigo devo entendê-lo, ao entende-lo passo a ama-lo”.

Aqui vai uma pequena lista de referências que aparecem no filme(Sei que não está completa).

Filmes: De Volta Pro Futuro, Speed Racer, King Kong, , Star Wars,  Universo DC, Gigante de Ferro, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado,O Iluminado, Clube dos Cinco, Cidadão Kane, Blade Runner, As Aventuras de Buckaroo Banzai, Chucky, Robocop, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, Godzilla, Tron, Jurassic Park, Alien, Duna, Universo Marvel, Os Fantasmas se Divertem, Mad Max, Gremlins, Akira, Os Embalos de Sábado a Noite, Curtindo a Vida Adoidado Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, e muitos outros.

Series, Animações, Animes: Thundercats, GUNDAM, Star Trek, Battlestar Galactica, Looney Tunes, Esquadrão Classe A, Cowboy Bebop, Super-Máquina, ,Firefly, Tartarugas Ninjas, He-Man, Batman de 1966.

Carros de Batman, Speed Racer, Mad Max

Jogos: Mortal Kombat, Batman Arkham Knight, Street Fighter, Gears of War, Tomb Rider, Duke Nukem, Halo, Injustice, Battleborn, Bloodrayne, Mass Effect, Overwatch, Joust, Battletoads, Doom, StarCraft.

Outros: Hello Kity, Hot Wheels, Shakespeare, Superman de 1978, Banda Devo, Lazer Tag de 1986, The Dark Side of The Moon da Banda Pinky Floyd, Guia do Mochileiro das Galaxias, Dungeos and Dragons, Tom Sawyer da banda Rush.

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Leonardo Gianetti

Um Mochileiro, estudando a psicologia da mente daqueles que não entenderam o final de Lost. Sou definitivamente um Louco com um Caixa. Dentro do Ciclo da alquimia exerço minha ética.


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