Literatura

Drácula, o Filho do Dragão. Eterno Servo de Satanás

Autor(a): Bruno Birth | 31 de outubro de 2018 | 19:38

Em 1897, era lançado na Londres vitoriana Bram Stoker’s Dracula (Drácula de Bram Stoker), o livro que abalaria as fundações do mito do vampiro. Talvez nem mesmo Bram Stoker, o autor da célebre obra que até hoje agrega fãs no mundo todo, podia imaginar que sua história se tornaria fruto de tamanha importância literária.


A capa amarela, da primeira versão publicada, destoava completamente do teor sombrio da narrativa, como que ilustrando o quão discrepante era a luminosidade aconchegante e cheia de vida do sol correlação à atmosfera demoníaca da Transilvânia dominada pelas trevas. Bram Stoker utilizou-se de muitos elementos, ao longo de sua narrativa, para caracterizar a dicotomia presente na eterna luta entre o bem e o mal, luz e trevas.

Capa da primeira edição. Trazida novamente pela editora Darkside.

Vlad Tepes, o príncipe romeno da Casa de Draculesti, foi o elemento histórico que Bram Stoker utilizou para dar vida à uma espécie de concepção lendária a fundamentar seu romance de terror, o que se mostrou uma abordagem de peculiar grandeza tanto para a época do lançamento do livro, como para as gerações futuras a entrar em contato com a obra. Ora, no fim do século XIX, a Europa se encontrava na segunda revolução industrial, a Inglaterra vivia o fervor da gloriosa era vitoriana e a França esbanjava as virtudes da Belle Époque. Valores de cunho nacionalista se abundavam para todos os lados, desenvolvendo colateralmente um certo temor, até mesmo repulsa, ao que se caracterizava como estrangeiro (sentimento que seria desenvolvido negativamente de modo crucial no século XX). Nesse contexto, o personagem principal da obra de Bram Stoker caiu como uma luva pois advinha de um local extremamente afastado (e para muitos desconhecido) no leste europeu, o que naturalmente fez com que o leitor ocidental pudesse sentir-se desconfortável com Drácula.
Não é possível afirmar se Bram Stoker realmente fez uso proposital do caráter nacionalista para criar um personagem que seria essencialmente repulsivo para seus leitores, mas é inegável que o uso do Conde Vlad Draculea surtiu tal efeito. Falando da persona de Vlad propriamente dita, outras características saltam aos olhos para exemplificar o quão incrível foi a escolha do escritor irlandês.

Vlad Draculea, o Empalador.

Vlad Tepes III foi historicamente o conde da Valáquia, ducado que abrangia a hoje famosa região da Trasilvânia. A Valáquia ficava entre duas combatentes frentes ideológicas em oposição: o reino da Hungria ao norte (cristão) e o Império Otomano na Turquia ao sul (muçulmano). A Casa de Draculesti, a Ordem do Dragão (em referência cristã a São Jorge), foi moldada nesse contexto sangrento e Vlad Draculea viveu praticamente metade de sua vida sob o julgo muçulmano (enquanto criança refém) e a outra metade como cristão (enquanto conde da Valáquia).

Brasão da Casa de Draculesti.

A quase que completa ausência de paz obrigou aos combatentes de ambos os lados uma postura que se tornou cada vez mais feroz e Vlad Draculea tomou para si o maior símbolo do terror na região quando passou a utilizar métodos diversos de tortura (vide empalamento, se tiver estômago) para incutir o medo extremo aos seus inimigos. Vlad Tepes então se tornou Vlad, o Empalador. O homem que fez refrear muitas tropas antes de ser derrotado, o homem que, com o passar do tempo, foi dominado por psicopatia aguda e passou a ser visto e temido como um verdadeiro demônio na Transilvânia.


Precisa de mais para se convencer do quão certeiro Bram Stoker foi ao escolher Vlad, o Empalador, para seu romance de terror? Pois bem, aqui vai mais uma característica que estava além dos anseios do escritor e que ajudou a estabelecer a obra como uma das mais influentes da história, certamente a mais influente de todas sobre vampiros. Vlad é um personagem real cuja história era muito desconhecida no ocidente e até hoje é desconhecida de muitos, e apenas rumores permeavam as histórias do príncipe romeno. Com o avançar dos anos, esse aspecto nebuloso envolvendo os fatos da história de Vlad em muito enalteceram o caráter lendário e demoníaco que o mesmo ganhou. A Transilvânia passou a ser considerada um local de atmosfera pesada, sombria.
Assim a obra de Bram Stoker se eternizou. É preciso aplaudir o nível de iluminação demoníaca que o autor recebeu. A imaginação sagaz de Stoker é plenamente invejável por todo aquele que deseja tornar-se um escritor.

Abraham Bram Stoker, o escritor por trás do lendário vampiro.

Em 1992, após muitas adaptações, chegamos ao filme que, se não elevou ainda mais a obra de Bram Stoker, fez uma justíssima reverência ao maior vampiro de todos. Sob as rédeas do célebre cineasta Francis Ford Coppola, o filme estrelado por Gary Oldman, Keanu Reeves, Winona Ryder e Anthony Hopkins, fez um revisionismo artístico da narrativa criada cem anos antes, mas sem perder a essência aterrorizante de Drácula.


Ao ler o livro, a sensação inaudita de terror, possível de ser detectada fisicamente pelo arrepio, pelo frio na espinha, é descrita com perfeição nas notas do diário de Jonathan Harker e sentida empaticamente pelo leitor, que se transporta inconscientemente para o castelo do conde Drácula, vivenciando a mesma situação de Harker, ou seja, sentindo-se encarcerado e, com o passar dos dias, aterrorizado. O desafio de Coppola aqui era tornar visual os aspectos descritivos desse terrível desconforto de Jonathan.

Abdicando de efeitos computadorizados, o diretor conseguiu transliterar os temores de Harker, por meio de simples técnicas visuais como o uso de sombras, bem como técnicas sonoras como o som de uivo dos lobos, os pequenos gemidos guturais de Drácula. O suspense acompanhado de mistério, que aos poucos se desenrola na tela, evolui com a apreensão do espectador, da mesma forma que Stoker consegue manipular o leitor, ao listar a passagem dos dias nas nervosas cartas e notas de Harker.

As insinuações de desconforto, manipuladas com artimanhas visuais por Coppola.

Quando a história viaja para Londres, Coppola faz, de modo notável, uso de diversas facetas demoníacas para ilustrar os vários momentos diferentes de Drácula. Não é a toa que o filme venceu o Óscar nas categorias figurino e maquiagem, nesse sentido tornando o filme uma ótima adaptação que certamente causou (e causa) calafrios ao espectador. Novamente a convergência no objetivo de Stoker e Coppola se configura pois, é quando a narrativa se passa em Londres que o escritor irlandês resolve tirar o diabo detrás da cortina e o exibir com a veemência de seus olhos vermelhos, seus dentes salientes e sua silhueta negra.


Vale ressaltar o valor da interpretação de Hopkins como Van Helsing, mas é Gary Oldman que domina a película como Drácula completamente possuído, mas que exprime com excelência o terror de sua presença quando está contido. Nesse momento há uma separação entre a obra original e a adaptação pois no filme, Coppola resolveu desenvolver o caráter emocional de Drácula como uma forma de tornar o seu Drácula diferente dos outros tantos adaptados anteriormente. No livro de Bram Stoker não há vestígio algum de afeição ou amabilidade em Drácula, o que o caracteriza como um ser completamente vil e maléfico.

Uma das muitas facetas demoníacas do Drácula de Coppola.

Com essa modificação gerida por Coppola, outros personagens acabam também sofrendo alterações, como no caso de Mina, noiva de Jonathan Harker, que no filme se torna fruto de obsessão aterrorizante de Drácula, ambos formando um amaldiçoado par amoroso, que consegue gerar um certo fascínio no espectador. Como em qualquer adaptação, mudanças dividem o público, mas é de comum acordo que o filme de Coppola se tornou um expoente, considerado por muitos o melhor filme sobre vampiros.

Gary Oldman em uma atuação memorável.

Drácula de Bram Stoker é uma obra sem igual, tanto literária como cinematográfica. A obra escrita há mais de cem anos jamais será esquecida e que todos saúdem Vlad Draculea, o filho do Dragão, o Empalador, o maior dos vampiros, aquele que será para sempre o eterno e poderoso servo de Satanás.

Referências:
“Bram Stoker’s Dracula”. Livro de 1897, escrito pelo irlandês Abraham Bram Stoker;
“Bram Stoker’s Dracula”. Adaptação cinematográfica homônima a obra literária, de 1992, dirigida por Francis Ford Coppola.
A história de Vlad Tepes Draculea, da Casa de Draculesti.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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