Literatura

Kindred: o Passado escravocrata, o Presente racista.

Autor(a): MathVas | 5 de outubro de 2018 | 14:59

Você está de pé no meio da sua sala quando apaga. Ao abrir os olhos, você viajou no tempo, para o passado. Para a primeira metade do século XIX, mais precisamente por volta de 1820. Com mais exatidão, num contexto social e histórico onde você é submetido a um inferno terrestre simplesmente pela cor da sua pele. Seja “bem-vindo”, estamos na escravidão, época em que pessoas injustiçavam outras e eram recompensadas. Se você for negro então, seja liberto ou de outra época, suas chances de sobreviver – e quem diga de viver – ali são piores do que em outros planetas. E o pior de tudo, você não tem controle sobre sua viagem no tempo. Você só vai, sem decidir ou querer. Pois…

O passado é inevitável.

Cena do filme “12 Anos de Escravidão”.

E muitas vezes é difícil sentir a complexidade de se lidar com ele. Livros didáticos e textos acadêmicos constantemente falham em passar esse sentimento a nós (se é que têm esta pretensão). Se isto for um defeito, devemos agraciar a literatura de ficção. E para o texto de hoje devemos agradecer a Octavia Butler, que com seu livro Kindred consegue nos transportar a um momento histórico que fundamentou muito dos preconceitos e racismos do presente.

Octavia E. Butler, a grande dama da Ficção Científica!

No livro acompanhamos a história de Dana, uma escritora que vive junto com seu marido Kevin. O presente se passa em 1976 nos Estados Unidos. Mas como logo percebemos, a maior parte da história se desenvolve no passado, na década de 1820, durante a escravidão no estado de Maryland (EUA). O fator que limita e complica ainda mais a sua própria vida naquela época é a cor da sua pele, pois ela é negra.

É partindo dessa premissa que Butler consegue abordar temas de gênero e racismo, ligando o presente ao passado, trabalhando com a hipótese de colocar um indivíduo do presente no passado e buscando conscientemente compreender como nos relacionaríamos diretamente com ele. Sentindo-o na pele.

Não é a toa que a escritora dá tamanha importância às feridas, às torturas, dores e sofrimentos que a protagonista Dana passa no passado. Retratando sempre, nas suas momentâneas voltas ao presente, que os ferimentos e as cicatrizes não somem. Que não estamos libertos das chagas do passado, por mais que vivemos num mundo diferente e distante temporalmente daquele.

Passado, presente. Presente, passado

O resultado não é outro se não um intenso sentimento de insegurança e vulnerabilidade que Dana sente.

Mas seu laço com aquela época não é aleatório, são laços de sangue. Suas viagens no tempo se ligam a uma criança escravocrata, Rufus. Seu ancestral tataravô, que infelizmente parece ter em suas mãos a vida de Dana, pois se ele morrer, ela deixa de existir.

E, para mim, a maior lição de todas é esta: não temos escolhas diante disso, não conseguimos desfazer nossas amarras do passado, deixar de lado todas as nossas cicatrizes e rastros que deixou no presente. De nossos laços de sangue… É por isso que Octavia Butler trabalha com outra hipótese, um questionamento importantíssimo para os tempos de hoje, mesmo o livro sendo escrito em 1979.

Se nossa convivência com o passado é inevitável, como podemos lidar com ele? Quais as formas de se lidar com o passado? E assim como Dana, nós buscaremos entender essas atitude conforme o livro se desenrola.

Cena do filme “12 Anos de Escravidão”.

Nós somos constantemente submetidos ao passado. É isso que Dana logo descobre quando percebe que está se submetendo mais facilmente àquela época. Suas atitudes mudam conforma vai vivendo no passado. Pois ela começou a aceitar certas coisas que antes achava inaceitável, como torturas psicológicas e físicas, deixando de lado também os pensamentos de fugir da fazenda onde ela é reduzida a escrava.  

E não há outra solução, a não ser ela buscar sempre uma conscientização daquela época, buscar compreendê-la em todos os seus costumes, valores e morais. E diante disso, deixar de ser passível aos grilhões do passado e estar constantemente confrontando-o. Se não podemos nos libertar dos grilhões, ao menos podemos lutar. Assim percebemos claramente a imposição de Dana diante daquela época; que apesar de abrandada com tempo, nunca some. Tanto pela sua postura e sua linguagem quanto por sempre expressar sua opinião. O que a faz diferenciá-la claramente das pessoas do passado. E todos aqueles que vivem e têm contato com ela a veem com estranheza. 

Apesar de saber que a escravidão é irremediável, que o passado já passou e é imutável – afinal, mesmo sua existência ali não mudaria o fato de que a escravidão aconteceu –, ela busca formas de atuar naquele meio. E a lição que ela dá a nós leitores não pode ser a mais exemplar.

Não se trata de mudar o passado, criar um presente melhor, e determinar ou direcionar um futuro que possa até ser livre de racismo e preconceito. Trata-se de criar oportunidades e possibilidades para aquelas pessoas que viveram no passado. E a melhor forma que ela encontrou de fazer isso, por mais difícil que possa ser resistir e lutar contra a escravidão, foi ensinar os escravos a ler e a escrever. Para que pudessem, da forma mais simbólica possível, assinarem sua própria liberdade.

Trata-se de fazer daquelas vidas as melhores possíveis diante de suas adversidades e limitações. Dana não vai mudar o passado, mas sabe que pode ajudar as pessoas ali. E ela tem plena consciência que suas atitudes diante daquela época podem matá-la. Ela convive diariamente com grandes chances de ser uma vítima, de morrer pelas mãos do passado, mas nunca deixou de ajudar, mesmo isso significando ir ao tronco e ser maculada incansavelmente pelo couro do chicote, até perder suas forças. As cicatrizes não são apenas físicas, são psicológicas.

E mesmo nos momentos que Dana volta ao seu tempo, o presente não dá trégua. Ligando o noticiário ela se depara com o Apartheid, na África do Sul. Mostrando como que aquele racismo e preconceito já estabelecido ao longo da história não acabou, longe disso.

Durante o Apartheid na Africa do Sul, a segregação racial fazia negros sentarem em lugares diferentes dos brancos, assim como beber em bebedouros distintos. 

 Ela mesma como escritora negra não cansou de sofrer preconceitos pela sociedade de sua época – o que sem dúvidas tem aspectos autobiográficos de Octavia Butler, uma escritora negra que escreveu ficção científica. Juntando as cicatrizes que adquiriu no passado com o contexto do seu presente, podemos muito bem confundi-los, quase como se as coisas fossem as mesmas, ou ao menos que mudaram pouco.

Ou até, como mostra a passagem em que ela lê sobre o nazismo, que o preconceito sempre perdura pelo tempo. E que o resultado nunca deixou de ser o sofrimento, a tortura e a morte. 

Com Kindred, Octavia Butler mostra com a vida de Dana, que se sente completamente insegura e vulnerável, apresenta a instabilidade da nossa realidade. Uma realidade que deixa o passado de lado. O resultado disso é literariamente um apartheid, uma segregação racial e o preconceito, pois nós buscamos lidar com o passado só quando ele é “bonito”, cerimonioso e enche de orgulho um povo; mas quando é trágico e “feio”, deixamos de lado, buscamos esquecer ou evitar. E esse é um dos nossos maiores tabus.

Mexendo com tabus históricos como a escravidão, Octavia Butler não faz apenas uma literatura heroica, mas também uma literatura fundamental para compreendermos nosso próprio presente.

“-Por que eu quis vir aqui afinal? Era de se imaginar que eu já vivi o passado o suficiente.

-Você provavelmente precisava vir pelo mesmo motivo que eu. Para tentar entender. Para tocar a prova sólida de que aquelas pessoas existiram. Para ter certeza de que você é sã. (…) Estamos sãos” e “temos uma chance de continuarmos assim.”

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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