Quadrinhos

A Importância Política dos Quadrinhos: Palestina, Joe Sacco

Autor(a): MathVas | 5 de março de 2019 | 13:13

Para Julia

Você já deve estar acostumado a escutar que quadrinhos são apenas para crianças e jovens, e que é apenas uma fase de leitura. É partindo justamente desta mentalidade que os quadrinhos são menosprezados e constantemente considerados de menor importância. Quase como se quadrinhos e livros para crianças também não tenham seu valor literário.

            Contudo, este cenário já vem mudando há muito tempo. Na década de 1980, Alan Moore – com V de Vingança, Monstro do Pântano e Watchmen – deixou claro que quadrinhos também são espaços para se debater questões filosóficas, políticas e sociais. Na década de 1990, Neil Gaiman com seu quadrinho Sandman mostrou que imaginar e sonhar não são apenas para crianças, mas que são inerentes aos seres humanos. E é desta década também que um quadrinho em específico não apenas mostrou que é possível debater política nos quadrinhos, mas fazer dos quadrinhos um manifesto político.

            Palestina de Joe Sacco é um marco. Para os quadrinhos ela significou a autoafirmação de um gênero, que é o jornalismo em quadrinhos. Mas para mim sua principal importância é de mostrar aos leitores e à sociedade de uma forma geral que a arte sequencial pode muito bem expressar um posicionamento político e social sobre questões atuais, utilizando da imagem e da escrita que muitos ainda consideram apenas para crianças. Palestina também foi longamente analisada aqui.

            O tema da obra de Sacco já está claro no título, trata-se da Palestina. Produzido na primeira metade da década de 1990, o quadrinho Palestina lida com a situação atual que os palestinos vivem, em seus campos de refugiados e no exílio, convivendo com a violência, a tortura, o preconceito e a exclusão. Apesar de escrito e desenhado a mais de 20 anos, ainda trata de um tema atual, delicado e importante para nosso contexto de globalização.

Mapa da colonização de Israel na Palestina.

            O motivo da importância deste tema está já nas primeiras páginas do quadrinho. Sacco aponta como que a grande mídia, essas dos ancoras dos noticiários e matérias de grandes jornais, não contam a história dos palestinos e da Palestina, e sim, apenas de Israel e dos judeus. Portanto, a guerra e a violência interrupta desde 1948 – quando os judeus, partindo da declaração da ONU, estabeleceram seu país na região da Palestina, no Oriente Médio, expulsando e desabrigando milhões de palestinos que lá viviam – é uma guerra não apenas militar, como discursiva.

            Com isso eu quero dizer que não é apenas da coerção física, da violência e da autoridade que se faz essa guerra entre palestinos e israelenses. E sim da forma que se apresenta, que se conta, noticia e informa a natureza desta guerra, que, antes de tudo, é assimétrica. Isso muito por conta dessa grande mídia que Sacco critica no início de sua obra. Com ela, a balança pende sempre para Israel. E os palestinos e a Palestina são esquecidos nesse mundo de intenso tráfego de informações. Sabe-se o nome dos judeus, seus rostos, sua história, mas nada se sabe do povo palestino.

            Partindo deste ponto é que Sacco começa a se manifestar. É aí que sua vontade de viajar até a Palestina, conhecer seu povo, pesquisar, conversar, dialogar com eles, inicia-se. Produz, após uma intensa e extensa pesquisa de campo, um quadrinho sobre esse povo expulso de sua terra, excluído de seus direitos e de seu espaço de voz, pois ficaram a mercê dos carrascos da grande mídia e da história produzida e contata pelos judeus, não podendo falar nem por si mesmos.

            A história e os discursos que os judeus sionistas constroem desde o século XIX tratam de negar a existência dos palestinos, de sua realidade e de sua terra com este nome. Ou seja, de aquela terra por mais longínquo seja a vivência dos palestinos nela, não tem o nome de Palestina e muito menos é habitada por algum povo. Claro que muito disso parte do preconceito dos europeus e dos judeus colonizadores com o Oriente Médio, com os árabes e o islamismo, pois os viam como povos “incivilizados”. Não bastando, vendo-se como superiores, acreditavam serem capazes de falar por estes povos “bárbaros”. Portanto, a interpretação dos judeus sionistas sobre a realidade dos árabes palestinos era preconceituosa.

            “Para mitigar a presença de um grande número de nativos numa terra cobiçada, os sionistas se convenceram de que eles não existiam e, em seguida, admitiram que existiam apenas de maneira rarefeita. Primeiro negação, depois obstrução, diminuição, silenciamento, confinamento” (p. 22). A Questão Palestina, Edward Said

            E aqui brilha o que há de mais fortes no quadrinho de Sacco, começando pelo título. A escolha de dar o nome de Palestina ao seu quadrinho não está apenas na referência óbvia ao que a história vai contar, e sim para afirmar prontamente sua posição diante desta questão. A Palestina existe sim, que os palestinos vivem, tem seus valores, costumes, desejos e sonhos.

Que os palestinos existem e tem sua própria cultura.

Joe Sacco, com seu quadrinho, manifestou-se a favor da causa palestina e agiu de forma até rebelde, pois subverteu a realidade e a ordem predominante. Pois, hoje poucos ainda falam da Palestina, e quando falam do conflito palestino-judeu, falam do lado de Israel. Não bastando, a mesma violência, preconceito, expulsão e exclusão que os palestinos sofrem, é corroborado e apoiado por países europeus e pelos Estados Unidos, fazendo com que o preconceito e a negação deste povo seja o valor estabelecido mundialmente. Portanto, o mundo ocidental consente o que Israel se propôs a fazer.

E nada mais subversivo do que narrar a história dos palestinos, um povo dito como inexistente.

E quando existente, é apenas como um conto de fadas aos olhos ocidentais.

            É sabendo de todo este contexto, que Sacco esclarece claramente em seu quadrinho, que podemos ver que não há nada mais icônico e significativo do que contar a história dos palestinos e da Palestina utilizando não os jornais e a grande mídia, mas outra. Uma mídia das massas e de amplo alcance que são os quadrinhos.

Os palestinso jamais e calarão

            Utilizando da arte sequencial para explicar a situação da palestina e seu posicionamento diante dela, revelar e expor a violência generalizada e o controle em que os palestinos estão à mercê e contar a história de um povo “inexistente” é o que faz da Palestina de Joe Sacco um manifesto. E assim podemos compreender como um quadrinho tem sim uma importância política.

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O que eu li, escutei e assisti: Um livro extremamente importante para minha pesquisa sobre a Palestina foi o do crítico literário palestino Edward Said, A Questão Palestina. Nele, Said, traz muitas questões relacionado a colonização do Oriente Médio, a história do povo palestino e a situação na atualidade. Este livro também foi importante para o próprio Joe Sacco, que passou a se aprofundar na questão a partir d’A Questão Palestina. Recomendo também um vídeo da intelectual brasileira Sabrina Fernandes, uma das maiores apoiadoras da causa palestina. Ela fez uma série de vídeos explicando tudo sobre a situação na Palestina. Segue como indicação também, um dos episódios do podcast Revolushow que fala também da questão Palestina. Você encontra muitos ouros conteúdos sobre o tema pela internet afora. Qualquer coisa só mandar uma mensagem que mandaremos uma seleção deste conteúdos.

MathVas

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Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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