Quadrinhos

A Saga do Monstro do Pântano: Livro Um – Alan Moore [Crítica]

Autor(a): MathVas | 16 de agosto de 2018 | 11:07

Watchmen, V de Vingança, A Piada Mortal, Promethea, Do Inferno. Através de heróis falhos, de um mundo autoritário, de um vilão ambíguo, da busca por narrativas e da Londres de Jack Estripador, Alan Moore demonstrou uma versatilidade incrível para contar histórias. E a escolha da vez é uma história de monstro!

Antes de tudo, preciso ser sincero: nunca me importei de correr atrás d’A Saga do Monstro do Pântano. Mas como recém colecionador de quadrinhos, não podia perder a oportunidade de seu relançamento em terras brasileiras. Quem compra quadrinhos mensais sabe, torna-se um vício. Fazemos de tudo para arranjar dinheiro para manter a coleção atualizada, e comigo não foi diferente. Parcela no cartão, joga o valor da fatura para o próximo mês, pede esmola no semáforo. Foi assim que o primeiro volume ganhou seu lar na minha estante e no meu coração. 

Após ler o Livro Um eu só senti uma coisa: quero que o Monstro do Pântano seja meu amigo. Quero que ele esteja ali, olhando por mim, vigiando e protegendo lugares que os outros, até mesmo os heróis, não dão a devida atenção. Eu quero a paz, a tranquilidade e a serenidade do Monstro do Pântano… É pedir muito?

Para quem nunca leu – como eu nunca havia lido – algum quadrinho da linha de terror ou horror, esteja ciente que este não tem uma história necessariamente assustadora, repleta de suspense e terror (claro que há edições com estas características), pois este gênero engloba diversos outros aspectos e não precisa necessariamente se apoiar nas características tão conhecidas deste gênero. Portanto – com histórias densas, filosóficas e uma narrativa precisa de Alan Moore; com o visual majestoso do monstro, desenhado pelas mãos mágicas de Stephen Bissette John Totleben; e pelas cores imperiosas da sensitiva Tatjan Wood – o Monstro do Pântano tornou-se um personagem bastante peculiar e incrível.

Por ser um monstro, podemos considera-lo um ser antipático, desagradável e repulsivo; mas a história não é esta, poi ele se provou um dos personagens mais sensíveis que eu já vi. Não é empático e caloroso como o Superman, pois a sensibilidade do Mostro do Pântano parte de outra perspectiva, de um aspecto mais natural de sua própria existência. Assim, as páginas do Livro Um estão recheadas de discussões filosóficas sobre a própria existência humana, do que é a humanidade, a monstruosidade, de como somos definidos por outros e que conseguimos nos compreender como indivíduos e seres humanos a partir do que é diferente. Sobra até uma alfinetada ao mundo pós-moderno volátil, do consumismo, da tecnologia, do tempo corrido, da alienação e da dificuldade, hoje, em distinguir as pessoas dos “monstros”.

Moore opta também por expandir estas discussões a outros personagens da história, trabalhando com situações sobre abuso, de insatisfação, ódio e principalmente do medo. Por ser um quadrinho de terror, o medo é um dos principais temas da história. E ele está presente nos diversos momentos, lugares e situações que os personagens passam, representados das mais diferentes formas, e dos mais diversos níveis de incômodo.

Isso! Incômodo é a palavra chave.

Moore, Bissette e Totleben – utilizando de uma narrativa sequencial incrível e quadros que conseguem retratar as emoções e os sentimentos dos próprios personagens com uma precisão absurda – tiram o leitor da sua zona de conforto, trabalhando com situações delicadas que incomodam até hoje a sociedade. É por isso que o Monstro do Pântano torna-se aos olhos do leitor e dos próprios personagens uma entidade que transparece segurança, conforto e confiança. Ele não precisa ser e buscar estas características; ele apenas é. E, na minha opinião, é este o fator que causa ao leitor e aos personagens essa ótima sensação de segurança e confiabilidade.

O Monstro do Pântano é um ser majestoso!

O quadrinho, contudo, não apenas apresenta as diversas faces do medo, como busca mostrar caminhos e os sacrifícios necessários para enfrentá-lo. E o que torna o personagem do Monstro do Pântano mais intrigante, afável e amável, é que ele, como todos os outros seres vivos, também sente medo. E – na fala de um dos personagens – “isso (..) dá um alívio. Porque, se às vezes até monstros sentem medo… Então não é tão ruim, é?” E o Monstro do Pântano responde: “Não… Não é tão ruim..”.

O diálogo mostra que ter medo, não é assim tão ruim quanto pensamos, que não é um erro ou uma falha nossa. Mas que o medo é inerente aos seres vivos. Sejam eles monstros ou não. E é justamente esta questão que faz o leitor sentir o quão humanizado que essa criatura é, remetendo à discussão iniciada com a primeira edição do Livro Um, sobre humanidade. Enquanto Moore levanta questões do que de fato é monstruosidade – o que faz alguém ser um monstro e o qual o seu espaço na sociedade de hoje –, ele está lá, por baixo dos panos, fazendo com que sintamos o quão humano um monstro pode ser, e o quão monstruoso um humano é capaz de se tornar.

A equipe criativa dessa Saga tomou as rédeas da revista n° 20, em 1984. Desde os seus primeiros trabalhos, eles prenderam as pontas soltas das histórias anteriores e redefiniram o personagem do Monstro do Pântano, trazendo questões que, mesmo sendo levantadas na década de 1980, continuam sendo bem vindas aos tempos de hoje. Trabalhando com a ambiguidade, Alan Moore mostra que não há uma linha delimitada que defina as pessoas. Ela é instável, tal como os significados que construímos a partir de nossas lembranças, nas pessoas e no mundo ao nosso redor.

LIVRO DOIS

Detalhes da Edição

Encadernada/Capa Cartão

17×26 cm 

212 páginas

Papel LWC

Preço: 30,90

Disponível apenas em bancas, revistarias e lojas especializadas (ou seja, corre para comprar!)

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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