Quadrinhos

A Saga do Monstro do Pântano: Livro Dois – Alan Moore

Autor(a): MathVas | 1 de setembro de 2018 | 11:40

Ao abrir o Livro Dois, maravilhado pelas histórias do primeiro e entusiasmado pelas questões já abordadas e discutidas, perguntei-me o que esperar de Alan Moore, Stephen Bissette e John Totleben na continuação da Saga do Monstro do Pântano. Quando se lida com uma revista de quadrinhos mensal, há muita coisa envolvida e constantemente as histórias que vêm na sequência são sempre um mistério, envolta de uma áurea sombria, em que nós leitores esperamos sempre o melhor.

            Foi com este espírito que virei as primeiras páginas do quadrinho, lendo a introdução de Jamie Delano e a prefacia de Neil Gaiman, para me deparar com uma sequência de histórias que levavam o Monstro do Pântano e seu hall de questionamentos e personagens para um lugar muito mais além do que eu esperava.

            O mundo e a mitologia que Moore e companhia criam a partir do Monstro do Pântano são de uma proporção épica, com o melhor do suspense e horror, ao mesmo tempo em que é profundo e reflexivo. No Livro Dois, além de manter alguns temas já abordados (como o abuso), Moore trata de, didaticamente, fazer com que o leitor se situe ainda melhor naquele universo, tratando do passado e aumentando a mitologia construída desde que ele, Bissette e Totleben, começaram a redefinir o personagem. Estas abordagens muitas vezes são utilizadas apenas de soslaio nos quadrinhos e até pouco detalhadas nas histórias, mas conseguem complementar a narrativa – usufruindo de monólogos e flashbacks que retratam os conflitos internos do personagem – fazendo com que o mundo criado pelos quadrinistas seja um mundo próprio do Monstro do Pântano. Um mundo habitado por pessoas simples, com seus costumes, medos, valores e falhas.

E é partindo desta perspectiva que Moore dá continuidade à sua abordagem do ser humano como uma simples linha tênue e instável. Conseguindo trazer, junto com o visual narrativo ainda mais afiado de Bissette e Totleben, um ambiente de horror que utiliza de elementos sobrenaturais, mas que nunca perde de vista os aspectos humanos que conectam toda a narrativa. Acredito que, com mais esse punhado de histórias, Moore conseguiu estabelecer ainda melhor a sua abordagem com o personagem e o mundo que ele habita. Um mundo que o Monstro do Pântano ainda não conhece muito bem – apesar de sua grande conexão com a natureza –, e que está sempre em expansão, para que nós, leitores, desvendemos juntos com ele.

O horror que Moore delimita e a equipe de artistas, Bissette e Totleben, dão vida, é um horror que interage completamente no questionamento do que é o ser humano, na sua voracidade tanto na maldade quanto na bondade. E num mundo onde não há distinções claras, podemos muito bem ficar felizes por descobrir que o Monstro do Pântano, esse Paladino Elemental, é uma entidade que perpassa serenidade e conforto, conseguindo ser tão feroz quanto bondoso e tranquilo. E não apenas de se comportar como o que já conhecemos do  Livro Um, mas cruzar linhas que nunca pensávamos ser capaz.

            Assim, conhecemos um pouco mais deste incrível personagem, sabendo de fato que, como as estações do ano, ele também muda. Pois, o Monstro do Pântano não está sujeito a se ater em antigos valores – muitos deles viciosos.

            E da mesma forma que Moore, Bissette e Totleban conseguem levar o horror humano à nós leitores, conseguem também levar calor aos nossos corações com amor que tanto os humanos quanto o próprio monstro consegue transmitir. Em toda a serenidade, postura e paciência, o Monstro do Pântano (e por trás dele os quadrinistas), proporciona – em meio ao terror, à humilhação e ao medo – espaços que nos permitem respirar e perceber que não é apenas de morte e coisas ruins que a humanidade é feita.

            Da mesma forma que os seres humanos conseguem matar, torturar e fazer da vida de outros um verdadeiro inferno, nós também podemos relaxar, amar e seguir em frente. Podemos lidar com o luto de nossas feridas e perdas, como também dos fatos que são difíceis de aceitar. E que, após enterrarmos adequadamente aquilo que já fomos, ou aquilo que já vivemos – seja com medo e trauma –, possamos fazer que a nossa vida, seja mesmo a nossa. Não a de outro, mas sim apenas a nossa, e compartilhar dela com quem queremos ou quem mereça.

            E que nós também estamos sujeitos a sermos monstros. Mas essa imagem monstruosa que podemos relacionar num primeiro momento ao Monstro do Pântano, pode nos revelar com surpresa e afeto que esse mesmo monstro pode ser alguém afável, amável e cheio de amor para dar. Que ele é autor dos feitos mais surpreendentes e impossíveis, e que com a mesma voracidade que pode amar e proteger, pode mostrar a nós, humanos, que podemos aprender com nossa própria “monstruosidade”.

MathVas

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Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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