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Quadrinho Palestina: História, Política e Mídia [Crítica]

Autor(a): MathVas | 5 de março de 2019 | 13:45

Não faz nem algumas semana que eu vi no noticiário uma reportagem sobre a morte de um judeu de Israel. O jornal deu o nome completo da pessoa. E assim fiquei surpreso pela facilidade que eu posso conhecer o nome de um israelense. E triste, por não saber pelos noticiários o nome de nenhum palestino. Foi partindo desta perspectiva que Joe Sacco, ao publicar seu quadrinho Palestina durante a primeira metade da década de 1990, decidiu retratar as histórias de um povo – invisível aos olhos ocidentais – que sofre com o preconceito, a repressão, a tortura, o confinamento e o esquecimento.

Buscando apreender a realidade cultura, social e histórica do povo palestino, Sacco mostra de forma bastante exemplar a importância política dos quadrinhos, representando e apresentando a nós, leitores, este povo de que ninguém fala. Abordando assim, um tema delicado, importante e bastante atual: a Questão Palestina.

Em um desenho de página dupla, Sacco retrata a condição em que os palestinos vivem, sob ocupação israelense

O cenário da história é uma região extremamente conflituosa, que vem passando desde 1948 por guerras e conflitos. O nome da região está no título do quadrinho, Palestina; e os personagens que permeiam essa história são os palestinos, povo injustiçado, reprimido, confinado, que acabou por cair no esquecimento da história, de uma humanidade que é influenciada diariamente por uma mídia globalizada. Mídia que retrata apenas catástrofes e situações políticas e econômicas que lhe interessam para criticar ou apoiar.

A história que você lerá ao virar as páginas do quadrinho, portanto, são a dos “indivíduos (..) derrotados da História, banidos para as bordas, onde vagueiam desconsoladamente, sem qualquer organização ou esperança, exceto por sua coragem inata, seu quase mudo apego às suas raízes, à sua história, que insistem em preservar e recontar, resistindo às elaboradas tentativas de supressão total”.

Os palestinos jamais se calarão!

E o nosso contato com esses personagens trazem experiências muito intensas e reais. Palestina não é um quadrinho de lazer e passatempo. Mas não se engane, ele também não é tão denso e complexo quanto você pode achar. A essência dele está tanto em conscientizar o leitor a respeito de uma questão importante e atual quanto em apresentar um povo e sua cultura. Uma cultura que tem seu fundamento numa experiência debilitante de repressão e exílio.

Por isso que a leitura de Palestina pode ser, em alguns momentos, desagradável, forte, pesada. Pois, as histórias que os personagens contam de violência, tortura e injustiça são experiências reais. A história do quadrinho é fruto de um trabalho de campo de Joe Sacco, que além de quadrinista é formado em jornalismo. É por este motivo que sua obra é reconhecida como aquela que firmou o termo Jornalismo em Quadrinhos.

Ele passou cerca de dois meses na Palestina, entrevistando e buscando conhecer o povo palestino. Transformou a si mesmo como um dos personagens da história, o narrador, mostrando a sua jornada pelo território, visitando famílias, vivenciando opressão por parte dos judeus israelenses e o confinamento que os palestinos são obrigados não apenas a aturar, como viver. E Sacco mostrar muito bem como a cultura dos palestinos consegue, de forma heroica, sobreviver e se moldar dentro de um espaço mínimo, onde milhões deles vivem.  

E nós, leitores, vamos junto com Joe Sacco conhecer esta realidade descomunal. E pelo fato de sabermos que aquilo é fruto de um trabalho de campo, em que o quadrinista esteve lá, conversando com as mesmas pessoas que compõem seu quadrinho, conseguimos compreender a dimensão e profundidade daquela história. O pacto tão natural que firmamos quando buscamos ler ou assistir uma obra ficcional, em que buscamos suspender nossas crenças e descrenças para que a história conte o que quer contar, não é necessário aqui.

Na verdade, por apresentar personagens palestinos que têm nomes, personalidades e experiências que de fato ocorreram com cada um deles, faz o valor da verossimilhança – a busca de apreender aquela realidade – em Palestina ser algo exponencial.

E não é por um acaso. A sensação que temos ao ler é fruto de um traço ilustrativo que faz com que os personagens e suas histórias saltem aos olhos do leitor. É como se eles saltassem das páginas e ganhassem vida diante de nossos olhos. E que vivem da forma mais literal possível, pois quando compreendemos que são pessoas reais, sentimos ainda mais que eles de fato existem, e que aquele quadrinho que estamos lendo trata de cada um deles.

Os personagens saltam para fora da página

E o contrário também acontece. Utilizando de ângulos de quadros e perspectivas dos personagens, Joe Sacco consegue fazer com facilidade que adentremos naquele mundo violento, sujo e injusto. Ele nos transporta para o ponto de vista dos personagens, botando em funcionamento a empatia, fazendo com que compreendemos as situações e momentos, os sentimos e as emoções dos palestinos, sentindo na pele o horror de viver sob a ocupação, a desgraça e a angustiante e claustrofóbica realidade de um mundo onde não temos protagonismo. Uma realidade onde nossas opiniões, vontades, sonhos e desejos não têm importância, e que são com facilidade desconsiderados e jogados na sarjeta.

O efeito que Joe Sacco consegue alcançar com seu quadrinho vem muito em conta do narrador. Ele como personagem é retratado como um típico estadunidense ocidental, mas que busca algum senso crítico sobre aquela realidade que se pôs a conhecer. E funciona muito bem porque ele é um narrador-personagem que sempre está se autocriticando. Como se agora, após sua viagem e durante a produção do quadrinho, ele refletisse sobre algumas de suas ações, pensamentos e atitudes diante daquela realidade e de suas pessoas. Como narrador ele censura suas atitudes como personagem.

Seu intuito está em trazer reflexões e levantar questões como terrorismo, extremismo religioso, militarismo israelense e problemas sociais e históricos da Palestina e de sua gente. Para isso ele utiliza de diálogos, monólogos internos e ilustrativos, buscando sempre contextualizar as situações para que o leitor não se perca na história.

Mas para mim, a maior genialidade em utilizar o narrador desta forma está em construir junto com o próprio leitor e ao longo de todas as páginas um senso crítico, uma consciência sobre aquela realidade. Que é construído de forma sutil, mas crescente, e que só se torna mais perceptível ao final da nossa jornada de leitura. Uma construção de consciência esperta e ligeira, e que conquista o leitor.

É por conta disto que saímos de Palestina mudados, e começamos a compreender ainda mais o poder dos quadrinhos. O que remete a uma das passagens da obra do quadrinista, em que Sacco/personagem desfruta alegre de um banho quente e do conforto de uma casa tranquila, algo raro naquela região.

Ele fuça as estantes do dono da casa, um professor estadunidense que leciona na Faixa de Gaza, e encontra um livro do crítico literário Edward Said. Ali o narrador expressa uma opinião sincera, de que é muito mais confortável ler sobre o Oriente Médio a partir de um livro acadêmico do que de fato ele tem vontade de conhecer aquela realidade diretamente.

É fácil e até mais preferível que busquemos conhecer o mundo a partir de livros de história, apostilhas de escolas e textos acadêmicos. Não que não seja útil ou necessário estas leituras, mas acontece que o problema está quando isso se torna um conforto, que aumenta a ignorância das pessoas em buscarem dos seus lares conhecerem outras realidades. Não também que não seja possível.

O problema é quando optamos pelo conforto dos textos acadêmicos e teóricos em detrimento de outras experiências muitas vezes mais sensíveis. Contudo, sei que a realidade financeira de muitas pessoas impossibilita conhecer todo o mundo, muito menos o Oriente Médio.

Mas a resposta para essa barreira está na sensibilidade que o quadrinho Palestina de Joe Sacco leva ao leitor, fazendo com que a realidade dos palestinos fique muito mais acessível às pessoas. Nesse sentido, seu trabalho como quadrinista e jornalista é mais do que exemplar, instrutivo e construtivo, é indispensável e primordial para a época de intolerância e preconceito em que vivemos.

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Quero deixar aqui meu enorme agradecimento a Julia, minha amiga que emprestou o quadrinho Palestina! Sem sua generosidade este texto não seria possível.

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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