Quadrinhos

O Quadrinho Nacional: a Bienal de Quadrinhos de Curitiba

Autor(a): MathVas | 11 de setembro de 2018 | 11:55

Do dia 6 a 9 de setembro a Bienal de Quadrinhos de Curitiba tornou-se uma artéria cultural, palpitante de experiências únicas! As minhas foram de uma reflexão particular, iniciado já no primeiro dia, mas que ganharam asas apenas no final do quarto e último dia. Percebi que a produção de quadrinhos brasileiros é riquíssima em criatividade e diversidade.

Reunido em um amplo espaço, contendo quatro salas para palestras e debates (um deles um cinema), e um galpão enorme com as mesas dos quadrinistas, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba chegou em sua segunda edição muito bem de saúde. Na verdade, ótima de saúde. O sangue cultural que bombeava de criatividade não encontrava nenhum atrito em suas artérias e veias. Era vermelho, quase rubro de nutrientes. E assim, ao pisar na quinta feira, primeiro dia de evento, eu me surpreendi com a vitalidade dos quadrinhos.

Pois eles não são apenas de super-heróis!

Esta constatação, ampla e visualmente perceptível, não foi apenas minha quando me deparei com a variedade de traços, histórias e narrativas que eu encontrava nas mais de 120 mesas (muitas delas divididas por duas ou três pessoas), como acredito ter sido também a de muitos que ficaram sabendo do evento e foram despretensiosamente até lá, não buscando um quadrinista em específico, muito menos uma obra. Assim como eu, muitos encontraram diversidade e perceberam que quadrinho é vai muito mais além do que super-herói.

E da mesma forma que encontramos uma variedade estupenda de gêneros, categorias, estilos e classificações na literatura, também encontramos de igual tamanho nos quadrinhos. Suspense, terror, samurai, velho-oeste, intimista, psicológico, aventura, ficção científica, fantasia, steampunk, comédia, romance, fábulas, de cunhos histórico e jornalístico. Como também muitas charges, tirinhas e muitos quadrinhos poéticos e experimentais. Portanto, o quadrinho nacional não apenas mostra que há algo além do gênero de super-herói, como se apresenta diverso e bastante criativo.

Podemos com muita segurança – e a Bienal fortaleceu ainda mais meu ponto – afirmar que a criatividade e a produção de quadrinhos nacionais, de diferentes lugares do Brasil, é uma das mais vigorantes do mundo. Como descobri em uma das palestras, a produção sul americana de quadrinhos independentes, alternativos e de pequenas editoras é a maior do mundo atualmente. E o Brasil é o líder de produtividade na América do Sul. E apesar de a comparação ser muitas vezes problemática, às vezes ela é necessária para apresentar um panorama geral. O que eu quero dizer aqui é que o valor que os quadrinhos brasileiros carregam é muito mais vital, estimulante e indispensável do que os quadrinhos de super-heróis que importamos dos EUA.

A riqueza e diversidade de nossa história é, a meu ver, nosso ponto mais forte e único. Com o tempo compreendi que não existe apenas um Brasil, e sim vários Brasis dentro deste território que vemos como nosso país. Brasis que retratam a escravidão, o sertão, o amazonas, o sul, o sudeste movimentado e populoso, a imaginação e os sonhos de brasileiros. Brasis estes que encontrei vastamente na Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Cidades, vilarejos, quilombos, vales, campos, florestas, situações e momentos históricos, assim como seus personagens e agentes históricos ganham vida em traços e escrita: na arte sequencial. Ganham vida nos quadrinhos.

E apesar desta ampla palheta de cor, gêneros, categorias, estilos e gostos, eu seria ingênuo de ignorar a realidade do mercado de quadrinhos que sempre esteve em crise. Que brasileiros não leem, e quando leem, não tem acessos à diversidade de quadrinhos que apresentei anteriormente. Não há nenhum problema em ler Turma da Mônica ou Super-herói. O problema reside na criança, no jovem e no adulto acreditarem que quadrinhos se limitam a apenas estes dois gêneros, ignorando, muitas vezes sem perceber, a variedade. Assim como eu ignorava, assim como muitas ignoram.

A importância da Bienal está aí, em mostrar para o publico de uma forma geral– aqueles que ficaram sabendo do evento pelo noticiário, pelo jornal, e que não estavam esperando como fãs animados por este momento –, que quadrinhos existem no Brasil, e não são apenas de super-heróis. Por mais que a feira não rendas lucros exuberantes e que às vezes mal pague as mesas do evento, ela tem uma importância primordial em nossa cultura.

Uma importância que está além das próprias obras e produção criativa dos quadrinhos, pois o mais enriquecedor não está apenas em lê-las, mas também em entrar em contato direto com aqueles que a desenharam e a escreveram: o(a) quadrinista. É escutar suas influências, suas inspirações, suas pesquisas, estudos e sua trajetória. É indicar leituras, obras e suas inspirações. É contar quem você é e escutar quem ele ou ela são. É cumprimentá-la, cumprimentá-lo. Pegar na mão, dar um abraço.

Pedir para ele contar sua história e você contar a sua.

É uma troca continua de experiências que fazem a nossa perspectiva se ampliar, como se tanto eu quanto o(a) quadrinista pudéssemos tomar consciência de nossa momentânea cegueira, e sermos agraciados com uma maior visibilidade de quem somos (como povo, também).  Nossa cultura palpita como um coração maravilhado diante de tal experiência. A saúde e a consciência da nossa cultura dependem muito destas experiências que revelam não apenas ideias, reflexões, debates e pensamentos, mas sim os próprios sujeitos, os indivíduos e as sociedades.

O Brasil e seus Brasis por mais extensos que sejam e longe que estejam, muitas vezes estão próximos de nós. Estão a apenas uma conversa, um aperto de mão, um debate, uma leitura. E não podemos perder estas oportunidades. Devemos abraçá-la. Tal como nos abraçamos quando precisamos de nós mesmos.

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Quero deixar meus agradecimentos ao Sergio Chaves, do Café Espacial e autor d’ O Vazio Que Nos Completa; a Bel Pardal, autora de Se Apagar; ao Michel Ramalho, autor de Légume e o Tempo; e ao Felipe Parucci, autor de Já Era. Vocês, emuitos outros que estavam lá, enriqueceram a minha experiência na Bienal, mostraram que os quadrinhos vão muito mais além do traço e da escrita, pois eles começam nas pessoas!

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


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