Séries

A sala limpa: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 9 de fevereiro de 2019 | 04:10

O episódio 7 de Cosmos trouxe à tona um assunto muito importante: a má utilização da ciência em prol de interesses puramente gananciosos e que acabam por colocar em risco a humanidade. Tudo começou quando um dos heróis da ciência partiu em uma honrosa missão que em nada tinha a ver com a luta contra empresários egoístas. De certa forma, a idade da Terra e a vida na Terra estavam em jogo quando Pat Patterson resolveu se aventurar pela infância de nosso planeta.

O passado da Terra.

Somos levados por Neil deGrasse Tyson aos imberbes momentos da Terra, quando sua formação se deu em uma era de extrema instabilidade no sistema solar, onde corpos celestes de campos gravitacionais incertos se chocavam frequentemente. Por que temos que entender este momento passado para acompanharmos Patterson em seu estudo sobre a idade da Terra? Pois os impactos de diversos meteoros que a Terra sofreu foram a chave para a compreensão sobre o nascimento de nosso pequeno mundo azul.

Como já foi dito, o método científico vai muito mais além de levantamentos de dados rasos e visam não responder de modo exato e inquestionável um dado fenômeno natural, mas sim diminuir o leque de questionamentos por trás de sua origem. Por este motivo, o estudo feito pelo arcebispo irlandês James Ussher, que resultou na Terra tendo 6000 anos de idade, não foi assertivo, mesmo sendo largamente aceito no século XVII. Ussher utilizou a bíblia para desenvolver uma linha temporal baseada na genealogia entre o tempo de Adão e o tempo do rei Nabucodonosor da Babilônia (o rei babilônico citado na bíblia tem eventos históricos reais).

Grand Canyon.

Bom, se estudos baseados na bíblia falham em ilustrar a idade da Terra, foi necessário partir para a ciência para resolver a questão. Aí se destacam os estudos geológicos, que se usavam dos eventos sedimentares da Terra para calcular a idade das diversas camadas de rochas de locais específicos para assim chegar ao denominador comum desejado. O Grand Canyon nos EUA sempre foi foco de estudos geológicos.
Contudo, estes estudos acabaram se mostrando ineficientes por estarem suscetíveis aos erros proporcionados pelas diversas alterações sedimentares causadas pela natureza. No fim das contas, a natureza não age de modo uniforme.

Cratera no Arizona.

Para resolver o problema da idade da Terra foi preciso olhar para os céus. Na verdade, olhar para a história dos meteoros que caíram do céu. Os corpos celestes a formar o sistema solar surgiram mais ou menos no mesmo período de tempo. Ora, se a estrutura da Terra é errática para se analisar, torna-se viável estudar a idade de fragmentos de meteoros caídos na Terra, por meio de sua formação atômica. Foi exatamente o que Clair Patterson fez. Na época, um jovem em pós-graduação, Pat Patterson passou a estudar a quantidade de chumbo presente em fragmentos de um meteoro caído há milhares de anos no Arizona, EUA.
A estabilidade atômica do chumbo, após várias fases de decaimento radioativo, foi ponto chave para a pesquisa de Patterson pois o chumbo presente no fragmento rochoso datava da época da formação dos corpos celestes do sistema solar, incluindo a Terra.

Clair Patterson.

Entretanto, a pesquisa de Patterson chegou a um entrave. Quanto mais o cientista se aprofundava na quantidade de chumbo presente no fragmento rochoso mais ele se deparava com a quantidade de chumbo na atmosfera, o que o levou a levantar novos estudos acerca da quantificação de chumbo no ar e suas causas. Patterson sabia que chumbo é um elemento tóxico pois o histórico de males à saúde humana já havia sido assinalado na Roma Antiga, quando o chumbo era o metal mais utilizado, seja na confecção de utensílios ou na construção mais pesada, causando grandes desgraças ao povo, principalmente a escravos.
Patterson sabia que a presença de chumbo no ar era uma ameaça à saúde pública e, ao se aprofundar nesse estudo, descobriu que o amontoado de chumbo na atmosfera não era causa natural, o que o fez concluir que as grandes indústrias de gasolina da época (que usavam toneladas de chumbo como matéria-prima) eram a causa de tamanha dispersão tóxica no ar.

Os restos do monumento a Saturno, o deus do chumbo, que era celebrado no feriado da Saturnália em dezembro. Um dos feriados mais importantes a serem incorporados pela igreja cristã, afim de atrair mais pagãos para o cristianismo.

Patterson rapidamente se tornou persona non grata dos grandes empresários do petróleo após publicar pela prestigiada revista científica Nature um artigo sobre os males do uso e dispersão de chumbo no ar pelas grandes indústrias de gasolina do século XX. O financiamento de suas pesquisas foram cortados e ele quase foi demitido. Contudo, Patterson encontrou no governo o apoio para seguir em frente em sua luta contra o conglomerado do petróleo.

A animação que permeou o episódio foi de suma importância ao desenrolar os principais fatos dessa luta em favor da verdadeira ciência; luta que ganhou os campos judiciais, uma vez que os empresários gananciosos também tinham cientistas ao seu lado, prontos para defender que o chumbo não era nocivo aos seres humanos e que a quantidade de chumbo no ar era natural.

Imagem de propaganda usada pelas indústrias da época para mostrar que o chumbo não fazia mal à saude das crianças.

Clair Patterson foi um dos grandes heróis da ciência por sua persistência. De fato, ele conseguiu dois grandes êxitos, a vitória judicial pôs fim ao uso de chumbo pelas indústrias petrolíferas, sendo essa iniciativa depois confirmada por estudos toxicológicos do ar, que ilustraram a drástica diminuição de chumbo em contato com os seres humanos. O outro grande feito de Pat Patterson foi ter desvendado a quantidade de chumbo no fragmento de meteoro e assim, acabou descobrindo a verdadeira idade da Terra: 4,5 bilhões de anos.

Hoje em dia, existe outra grande luta para desacreditar a verdadeira ciência e enganar a natureza. O aquecimento global é real e iminente, mas adivinhem só quem são os responsáveis por contradizer esse fenômeno causado pelo ser humano? Sim, os grandes industrialistas.
Porém, se teve uma coisa que Patterson nos ensinou é que não se engana a natureza.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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