Séries

As Barreiras para adaptar Cem Anos de Solidão!

Autor(a): MathVas | 11 de março de 2019 | 13:57

Primeiro veio as notícias, de tudo que lado e por todas as redes sociais. Depois veio a alegria coletiva de milhões de leitores de Gabriel García Márquez. O motivo não podia ser outro, sua história mais célebre, a que eu particularmente considero sua obra prima e uma das mais importantes da literatura mundial, será adaptada pela Netflix. Isso mesmo, Cem Anos de Solidão vai virar uma série de TV!

A APOSTA CERTA

A aposta da Netflix é alta. Altíssima. Extremamente alta. Isso porque o escritor latino-americano conta com milhões de fãs pelo mundo inteiro. Sua obra-prima já teve mais de 50 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo e já foi traduzida para 46 idiomas. Ou seja, é uma história que consegue cruzar fronteiras com facilidade, conversando em diversos idiomas e conquistando o coração de milhares de pessoas.

Contudo, é muito importante ressaltar que se a história de Cem Anos de Solidão conquistou o mundo, não foi por um acaso. Ela carrega uma importância estética e literária que é comparável ao romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. A obra carrega consigo uma importância política e indentitária para a América Latina tão poderosa, mas tão poderosa, que conquistou o mundo.

COM GRANDES PODERES VEM GRANDES RESPONSABILIDADES

A Netflix, portanto, escolheu muito bem seu próximo sucesso. Eles definitivamente têm uma mina de ouro nas costas. E foi nesse momento, vendo a importância e a densidade da obra, que comecei a ficar com medo desta notícia. Eu não sou apenas um leitor devoto de Gabriel García Márquez, sou um estudioso de suas obras, seguindo para o terceiro ano de uma pesquisa interrupta sobre sua vida, sua produção literária e jornalística.

E como estudioso, gostaria muito de ver a essência do escritor e de sua história sendo respeitada e devidamente adaptada. Como leitor devoto, quero a mesma coisa. É nesse momento que tanto meu lado leitor, quanto meu lado historiador, se juntam para avisar a todos que uma história tão poderosa quanto essa, capaz de cruzar oceanos inteiros e carregar consigo sua essência mágica, pode ser um grande fracasso se não ser devidamente adaptada.

A série que tem tudo para entrar em pé de igualdade com The Crown, Game of Thrones e O Senhor dos Anéis, pode botar tudo para perder se a Netflix não saber o que fazer com ela. As primeiras notícias são promissoras, na compra dos direitos autorais, os herdeiros de García  Márquez, isso é, seus filhos, exigiram que apenas atores latino-americanos fizessem parte do elenco. Também foi anunciado que a série seria filmado quase que inteiramente na Colômbia, terra do escritor. Não bastando, seus filhos também entrariam como produtores executivos, o que podemos presumir um trabalho que respeitará a originalidade de Cem Anos de Solidão e uma adaptação digna para as telas.

AS BARREIRAS PARA ADAPTAR CEM ANOS DE SOLIDÃO

Apesar das boas notícias, o medo não vai embora, pois a parte mais delicada de adaptar uma história tão poderosa e mágica quanto esta é a escolha dos diretores e do showrunner da série. Isso porque a obra carrega consigo um tom maravilhoso e bastante expressivo, que mistura a realidade com a magia, mas não como a fantasia de Harry Potter.

A mediação do que é mágico e do que é real dentro da história é o que faz a obra ser tão potente aos leitores, porque é justamente essa mediação em que García Márquez escreveu suas principais críticas sociais, políticas e expressou toda a realidade do seu mundo, a América Latina. Esse gênero em que ele se aventurou com autoridade, a ponto de ser considera seu maior expoente, é conhecido como Realismo Mágico.

Mas as barreiras não param por aí. O próprio Gabriel García Márquez admitiu enquanto vida que sua obra seria muito difícil para adaptar. Demandaria um investimento cinematográfico e atores de qualidade. E eu vou além, pois demandaria uma qualidade absurda nos efeitos visuais e uma estética cinematográfica bastante singular e própria da série. Ao que diz respeito ao investimento, sabemos que a Netflix está aqui para produzir o melhor, principalmente com uma guerra de streamings chegando. Resta saber até que ponto ela está disposta a investir e a se comprometer com essa série.

CAMINHOS A SEGUIR

Hoje, apenas um nome me vem à cabeça para dar conta deste enorme complexo projeto que será adaptar Cem Anos de Solidão: Guilherme del Toro. Toda sua filmografia, principalmente suas obras como O Labirinto do Fauno e A Forma da Água, expressam em grande parte o tom que a história do livro apresenta e que a série deverá alcançar. Atualmente ele seria o diretor mais hábil para produzir uma obra que busca uma relação direta entre a magia e o realismo.

Não é à toa que ele é um dos principais diretores da atualidade, sua experiência com grandes produções e os acertos em saber contar muito bem uma história apresentam todo esse mérito. É por este e outros motivos que para mim ele seria o nome certo. Claro que eu sei a dificuldade de trazer um diretor ganhador de Oscar para a Netflix, sem contar que seria para produzir não um filma, mas uma série. Contudo, não há dúvidas, esse seria o nome certo.

Na minha opinião, se a Netflix não se mobilizar em torno deste diretor, ou até de diretores com competências e tons similares ao Guilherme del Toro, a série terá poucas chances de sucesso. Como fã devoto eu não poderia pedir menos.

Espero que a Netflix esteja atento a isso, que busque respeitar a originalidade de Cem Anos de Solidão e se comprometa inteiramente a produzir uma série de qualidade como já sabemos que ela consegue. Porque de fato eles tem uma história poderosíssima e que pode conquistar uma vez mais o mundo.  

MathVas

MathVas

Como idealizador e criador do Sem Cultura eu só tenho a agradecer sua leitura. Sou historiador, escritor e pesquisador ferrenho de literatura, acredito que, como todo mundo, tenho minha própria voz. Uma voz que está aqui para ser dita, criticada, apoiada. O site busca este horizonte, um lugar onde eu possa falar do que eu amo. E muito do que o site representa, é o que eu sou. E o Sem Cultura está aqui para que amores sejam compartilhados. Não apenas os meus, mas os seus também! Espero construir e escrever textos com vocês, para que possamos semear, juntos, um espaço aberto para todos! Um abraço!


Deixe o seu comentário!

Pular para a barra de ferramentas