Séries

Entretenimento e realidade estão em Sintonia na Netflix

Autor(a): Bruno Birth | 9 de setembro de 2019 | 02:10

Quando vi pela primeira vez o slogan “a quebrada está na Netflix”, que promovia Sintonia, a nova série da locadora vermelha, fiquei me perguntando (com um ar de desdém, confesso) o que a Netflix teria para dizer sobre a realidade da periferia. Em minha defesa, essa pergunta é muito válida pois produções com atmosfera social genérica e sem muito aprofundamento se acumulam em todas as plataformas de entretenimento. Hollywood e as novelas da Globo, por exemplo, produzem obras desse tipo à exaustão pois o apelo de massa dessas produções é grande, uma vez que, como tais obras não se focam de verdade em nenhum contexto social, conseguem conversar, mesmo que superficialmente, com todos os tipos de espectadores, gerando audiência. É relativamente fácil criar esse tipo de obra audiovisual pois tais produções se usam de ferramentas comuns como estereótipos e tramas com construção básica e clichê.

Dito isso, quando decidi dar uma chance de assistir a série, o que eu esperava de Sintonia era nada mais do que apenas mais um produto audiovisual sintetizado, com viés simplificado para ser reproduzido da forma mais tragável possível por parte do grande público.  O que me fez dar essa chance foi o fato de Kondzilla, um dos maiores produtores musicais do Brasil e talvez o maior empreendedor da arte da periferia paulista, ser o idealizador da série. Uma pessoa que nasceu e cresceu na favela poderia ter o que dizer, realmente.

Antes de partir para o entretenimento e a análise da série em si, vou procurar de modo breve explicar porque é muito importante entender que ilustrar a periferia de maneira simplória e sem contexto aprofundado é prejudicial para a consciência social dos espectadores que vivem nas favelas e fora delas.

Favela do Jaguaré. Local de gravação da série Sintonia.

De onde surgem as favelas? Por que as pessoas que vivem em favelas tender a possuir características peculiares? Seja no linguajar, no modo de se vestir, no papel da mulher e do homem na cultura da comunidade ou no dia-a-dia da intensa guerra entre o crime organizado e a polícia, as favelas brasileiras carregam o D.N.A. da construção psicossocial da histórica luta de classes. Os fatores que contribuem para o surgimento e proliferação de favelas são muitos, desde governamentais, como falta de planejamento urbano e, por consequência, o descaso na administração dos serviços públicos nessas áreas (saúde, educação, etc), até mais profundos como a escassez de recursos financeiros em prol do desenvolvimento humano da população como um todo; sim, estou falando da maldita desigualdade social, que é, inclusive, um problema maior do que qualquer governo, uma vez que está presente na gênese do capitalismo e precede qualquer governo. Mas isso é assunto para outros artigos.

Além de tudo isso, um outro fator de suma importância social existente nas favelas ilustra com a maior clareza possível o cotidiano da sociedade contemporânea brasileira: o retrato do racismo estrutural. Em um outro artigo eu explico de modo objetivo o histórico por trás dessa verdadeira chaga social (leia aqui) mas vale a pena ressaltar isso aqui pois fico espantado com a quantidade de pessoas que alegam a inexistência do racismo nos dias atuais quando existem verdadeiros laboratórios orgânicos gigantes para provar o contrário: as favelas.

Tudo isso que elenquei acima parece ser meio óbvio de se enxergar, mas acreditem, não é. Por que? Muitas pessoas que não compartilham a vivência em favelas interpretam as atitudes e modos de vida das pessoas que vivem nas favelas de maneira isolada e sem a devida compreensão contextual. Nesse cenário, conceitos como o maniqueísmo ganham uma força absurda na voz dessas pessoas, que concluem erradamente que os seres humanos nascem “bons” ou “maus” e que a favela é o celeiro da maldade, uma vez que abriga o crime organizado. Tal veredito é simplório, errado e elimina o verdadeiro fator por trás do desenvolvimento de qualquer ser humano ou círculo social: o construtivismo.

Contudo, para se compreender o construtivismo de modo abrangente é necessário ter empatia para enxergar que, não só a realidade de todas as outras pessoas é diferente da nossa, como também o local onde todos nós crescemos formam o que nós somos. O maniqueísmo em nada tem a ver com isso. Experimente se imaginar crescendo em um local com as características que listei acima antes de fazer qualquer julgamento superficial. Analise as raízes da desigualdade social, analise o que alimenta o crime senão o bloqueio de acesso ao desenvolvimento humano. Pense por vários instantes no papel desempenhado pela polícia nesses locais senão o de ameaça constante à vida, uma vez que não existe a mínima possibilidade de a polícia ser um agente de resolução para os muitos e complexos problemas sociais envolvendo a estrutura histórica das favelas, restando apenas aos policiais o papel de chacinadores da periferia. Duvida de mim nesse aspecto? Pesquise sobre a quantidade de mortos pela polícia na periferia, pesquise sobre a etnia desses mortos. Dizer que a polícia é formada por pessoas bondosas e que favelado bom é favelado morto não é digno de respeito, caro leitor.

Já parou para pensar sobre o Funk (que é um dos principais elementos da série Sintonia)? Já parou para pensar nas características essenciais do Funk ou apenas acha que seus criadores e adeptos são pessoas moralmente erradas que “escolhem” a perversão? O Funk é um produto da falta de suporte social por parte daqueles que governam a sociedade, sobrando aos que vivem em favelas a crueza das relações humanas, que acaba exposta nas letras de muitos hits do Funk. Não nos esqueçamos que a educação sexual é um tabu até mesmo fora das favelas, o moralismo e o machismo governam de maneira esdrúxula o modo como nós devemos interpretar o sexo.

O dinheiro também é personagem primordial para o Funk, assim como no Hip Hop norte-americano, onde os rappers (surgidos da classe baixa, assim como os funkeiros) utilizam sua música para esfregar na cara da alta classe branca que também podem adentrar o Éden dos prazeres proporcionados pelo poder financeiro.

Não estou pedindo para você gostar de Funk. Muito menos vou bancar o moralista comum e condenar as letras (que muitas vezes são literais ao extremo) do Funk; afinal de contas, o sexo faz parte da música como um todo, não seja hipócrita. Esse não é o meu papel e nem deveria ser o de ninguém. O nosso dever é praticar a empatia, com o mínimo de conhecimento social e histórico prévio, para podermos entender e respeitar o construtivismo por trás do contexto social das favelas.

O que mais me impressiona quando penso em favelas é a capacidade do ser humano de se moldar, se adaptar aos mais extremos ambientes. A esperança é a maior ferramenta em prol de um dia melhor na arte da periferia, que transborda em pinturas, na música, na literatura, a transformação e até mesmo na ressignificação do que é ser favelado. Um poderoso senso de pertencimento que deveria ser muito mais veiculado na mídia e respeitado pela sociedade em geral.

Doni representa o sonho de ascensão social por meio da música que pulsa na favela: o Funk.

Partindo para a série Sintonia, já começo dizendo que fiquei impressionado com o realismo imposto ao enredo e atuações da produção. Todos os elementos que citei anteriormente discorrem de modo espontâneo na tela, fazendo com que eu me sentisse em muitos momentos assistindo um documentário dramático, e não uma série de entretenimento audiovisual.

Kondzilla trabalhou junto a Netflix por mais de três anos na produção dessa série, trazendo, inclusive, ex-detentos, que cursaram teatro no tempo de reclusão, para compor o núcleo de elenco do tráfico de drogas. O cuidado com o realismo no dialeto da periferia é exemplar. Aliás, esse é um outro fator que eu devo elevar aqui. Se você é um dos muitos que encheram as redes sociais com comentários depreciativos sobre o modo de falar dos personagens, por favor, não faça isso. Dê o mínimo de respeito a si mesmo e descubra que a linguagem é um organismo vivo, que se molda e se altera a todo instante, dependendo do local onde se forma, criando diversas formas de se falar o mesmo idioma. Não peça português formal em favelas ou em qualquer outro lugar. Se o português formal faz parte do seu cotidiano, respeite-o em seu cotidiano, não tente imaginar todos os outros milhares de cotidianos sociais dentro do seu. Isso é muito, mas muito bobo.

Nando representa um peão que aspira ser rei no grande tabuleiro do crime organizado. Nesse xadrez é preciso também saber jogar com a polícia.

Enfim, voltando à série, um outro aspecto que me impressionou em alguns momentos foi o esmero técnico da produção. Há certas sequências de cenas que claramente foram construídas com todo o cuidado para serem não só assistidas como refletidas. O fim do episódio 2, onde Nando revela que fez algo pesado a Doni e Rita é de uma fotografia e trilha sonora que se conectam perfeitamente, mesmo sendo simples. O universo dos três personagens sonhadores é refletido no olhar dos três atores. Que química incrível os três protagonistas possuem; o nome Sintonia faz jus à série. A sequência inicial do episódio 3 também é muito boa, com uma edição dinâmica que mostra o “caminho do dinheiro”.

A partir do episódio 3 começa um outro retrato realista das favelas: a forte presença da religião. Eu não preciso revelar o quanto o cristianismo se alimenta das mazelas humanas para se manter forte. Num local como a favela, onde várias características de opressão social e psicológica se acumulam, não é de se espantar que a esperança por um dia melhor se traduziria no conceito de deus trazido pela religião.

Rita representa a tristeza e desilusão humanas, que fatalmente encontram alento na religião.

Só que é muito interessante como a religião é desenvolvida na narrativa de Sintonia pois, como falei, há de fato uma presença forte nos episódios como uma forma de mostrar a importância do cristianismo no cerne da favela, mas a série se aventura por outros meios, sem apelar para sensacionalismo algum, para ilustrar a influência da igreja na comunidade e nas pessoas. É na persona de Rita que vemos o desenrolar dessa subtrama. Dos três personagens principais a sofrer com problemas diversos, a escolhida para quebrar perante as dificuldades da vida foi a mulher; desavisado você se pensa que isso é aleatório. As mulheres sofrem o peso imposto pelo machismo nos mais diversos níveis e o pedido de socorro de Rita para a igreja se torna algo natural no desenvolvimento dos episódios. Rita representa a mulher que, segundo o moralismo hipócrita, deve ser uma mulher de bem, devota, que só vai encontrar a paz quando desprender-se de tudo aquilo que pode ser considerado reprovável aos olhos de deus. Não preciso dizer que a cobrança moral sobre o homem é bem diferente, menos sobrecarregada.

E Rita, como muitas pessoas, acredita piamente na redenção pelo caminho da religião, o que gera uma das principais cenas de toda a série, quando ela caminha desapercebida pelos bastidores de uma grande igreja, sorrindo e com os olhos brilhando enquanto vê salas com as vastas contagens de dinheiro sobre as mesas, ao som de uma trilha sonora em nada extasiante ao fundo, mostrando o quão inocente a garota de fato é.

Enfim, tentei ser breve e objetivo nessa análise que naturalmente tinha que ser além de apenas falar sobre a série. É muito difícil tocar em temas tão complexos de modo simples mas trate esse artigo como uma síntese do que realmente existe na periferia e procure saber mais pois isso gera consciência social, algo que deve estar em constante transformação.

Fico alegre em saber do sucesso de Sintonia pois se trata de uma produção séria. Ainda sendo uma síntese da realidade, essa série tem muito a dizer, mas é preciso que o espectador esteja, de fato, apto e com disposição para ouvir. Só assim se absorve o realismo por trás do entretenimento.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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