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Game of Thrones: A temporada final

Autor(a): Bruno Birth | 23 de maio de 2019 | 02:40

O sucesso mundial que atende pelo nome de Game of Thrones chegou à sua derradeira temporada, após 9 anos de história, contando do lançamento da primeira temporada, que ocorreu em março de 2011. Muita coisa aconteceu desde então e o Sem Cultura falará em outros artigos sobre a série (também sobre os livros) como um todo. Esse artigo em especial se trata da 8° e última temporada dessa que foi a maior produção de TV da história.

Agora que a poeira da internet deu uma assentada após o ep final, chega mais para acompanhar os prós, os contras e algumas coisinhas a mais sobre o fim de GoT.

Bom, de antemão já vale ressaltar aqui o contexto no qual as duas últimas temporadas de Game of Thrones se basearam; contexto esse de bastidores, que acabaram por influenciar diretamente no desenvolver dessas temporadas. Os livros de As Crônicas de Gelo e Fogo (obra na qual GoT é baseada) deixaram de auxiliar a série a partir do final da 5° temporada, dando fim ao grande suporte de texto que os showrunners da série sempre buscaram como ajuda para criar seus roteiros. Essa adaptação pela qual D. B. Weiss e David Benioff (os homens por trás da série) tiveram que passar para prosseguir com o show acabou se tornando inesperada, uma vez que George R. R. Martin, o escritor da saga literária, disse em diversas oportunidades, que esperava que o livro 6 (Os Ventos do Inverno) fosse lançado antes que a série pudesse alcançar o livro 5, contudo, seu modo lento de escrever e os vários trabalhos paralelos que o ocupam atrapalharam esse plano.

D. B. Weiss e David Benioff.

À primeira instância, a falta dos livros não influenciou na qualidade da série, uma vez que a 6° temporada foi sucesso de público e crítica, e não havia praticamente ninguém apontando o dedo dizendo que “a GoT de agora nem se compara à GoT de antes”.

Entretanto, chegamos à temporada 7 e o primeiro choque veio na diminuição da quantidade de episódios. Há grandes controvérsias sobre se a HBO tinha ou não tinha dinheiro para bancar o orçamento estimado de 10 episódios de 15 milhões de dólares ou se a escolha por menos episódios veio dos próprios showrunners; nem vou entrar nesse mérito.

A questão é que, com menos episódios, há menos tempo para desenvolver tramas no roteiro. Sendo que na parte final de uma história (como foi o caso das temporadas 7 e 8 de GoT), as definições e acontecimentos importantes se acumulam. Por fim, acontecimentos importantes sem o devido desenvolvimento perdem em profundidade e coerência. É lógica isso, não é necessário ser formado em cinema para compreender essa situação.

Para se ter uma ideia, o último grande acontecimento da série que teve desenvolvimento paulatino em uma temporada foi a Batalha dos Bastardos, que se desenrolou durante praticamente toda a temporada 6 e por isso exponenciou as emoções da audiência quando de fato aconteceu. Não é possível dizer o mesmo com a morte de Viserion pelas mãos do Rei da Noite, na temporada 7, por exemplo. Faltou aprofundamento nessa trama.

Diante dessa realidade, é conclusivo dizer que a qualidade das temporadas 7 e 8 (que teve 6 episódios apenas) fatalmente caiu.

Mas vamos a ela, a temporada final de Game of Thrones.

Jon Snow e Daenerys chegando a Winterfell.

Os primeiros dois episódios da temporada 8 foram muito bons. Estabeleceram-se algumas relações enquanto outras já conhecidas pelo público se aprofundaram, o que era absolutamente necessário em um contexto de convergência de vários personagens importantes em apenas um local: Winterfell. Os núcleos chefiados por Daenerys e Jon Snow se misturaram por conta da grande ameaça trazida pelo Rei da Noite e seus caminhantes brancos. Não dá para detalhar todos os momentos dramáticos marcantes nesses episódios, bastando dizer que houveram diversos diálogos muito interessantes; uma mistura de emoções regeu esses primeiros momentos da temporada final pois apesar de o pressuposto fim do mundo ser o elemento protagonista nessa parte da trama, ainda havia tempo para conversar sobre coisas banais, sobre o Trono de Ferro, sobre tristeza, amor, e etc.

A chegada de Jaime Lannister a Winterfell no fim do episódio 1 só acrescentou à atmosfera dramática estabelecida.

A chegada de Jaime a Winterfell.

Jaime é um dos principais personagens dessa história, sem dúvida um dos mais complexos. Seu abandono a Cersei para imprimir uma viagem a um local onde ele sabia que seria odiado foi um ponto alto para a progressão do personagem correlação a mudanças que o simples fato de viver pode agregar, afinal de contas, pessoas mudam com o passar do tempo, e Jaime parecia trilhar esse caminho estando em tamanho contraste ao pisar no norte.

Em uma das cenas mais lindas de toda a série, Jaime sagra Brienne uma cavaleira dos Sete Reinos, na parte final do episódio 2, coroando a grande personagem da paladina de Tarth, que sempre teve que se ver desencaixada num mundo impróprio para ela.

Uma cavaleira dos Sete Reinos.

Mas aí veio o episódio 3.

O enredo envolvendo os caminhantes brancos permeou a série (tanto literária quanto da TV) desde o mais extremo início. Ironicamente, a série de TV deu muito mais importância a essa trama do que os livros até aqui. Os livros mal citam os caminhantes ao longo de 5 volumes, sendo que o livro 6 terá todo o foco nesse aspecto. Estou dizendo isso pois após o episódio 3 muitos fãs alardearam pela internet que “o grande foco da série nunca foi o Rei da Noite e sim o Trono de Ferro”, quando essa afirmação é, no mínimo, questionável. O nome da série “Game of Thrones” é o nome do primeiro livro da saga (Guerra dos Tronos em adaptação PT-BR) e foi escolhido pelos showrunners por ser um nome mais curto do que “As Crônicas de Gelo e Fogo” e por carregar impacto, não tendo absolutamente nada a ver afirmar que “os produtores da série colocaram esse nome pois o foco da série é o Trono de Ferro”.

Mas por que salientar isso? Porque a morte do Rei da Noite e o fim da Longa Noite foi superficial de um modo constrangedor. A ameaça dos caminhantes não se restringia ao norte, se tratava de um evento com potencial de atingir todos os Sete Reinos e além. 8 mil anos antes, na Era dos Heróis (discorrida nos livros e citada na série) os caminhantes assolaram todo o território de Westeros antes de sofrerem a derrota pelas mãos do grande guerreiro Azor Ahai. O retorno dos caminhantes, 8 mil anos depois não chegou nem perto de ser o evento cataclísmico que durante toda a série foi alardeado por Melissandre e outras personagens. A constante presença do Rei da Noite gradativamente elevou o tom da série para que o apocalipse anunciado se tornasse cada vez mais iminente. É obvio que não se pode culpar a audiência por criar expectativa frente a tamanho desenvolvimento de enredo.

Mas o que aconteceu? A pressa em fechar plots com menos tempo de episódios fez com que o Rei da Noite nem sequer alcançasse o sul de Westeros, morrendo de modo vexatório e, de novo, constrangedor.

O Rei da Noite.

Ainda nesse episódio, outro aspecto que foi regido de modo negativo (além do supracitado mal desenvolvimento de tramas em pouco tempo) começou a dar as caras abertamente: o fanservice. Como já falei, vários personagens principais e queridos estavam em Winterfell e, consequentemente, participaram da Batalha de Winterfell. Há várias cenas em que esses personagens estão a ponto de morrer e são salvos miraculosamente, chegando a incomodar e tirar a imersão dramática, uma vez que se percebe que, com o avançar do episódio, ninguém de suma importância vai de fato morrer nessa que deveria ser a maior de todas as batalhas de Game of Thrones. “Frustrante” define essa situação pois além de tudo é incoerente pois os episódios seguintes mostram que os exércitos de Daenerys e Jon praticamente não perderam em contingente.

Não querendo comparar, mas já comparando, a ameaça de Sauron aos povos da Terra-média sim é uma ameaça respeitável e que atinge a todos.

Bom, o episódio 3 passou e chegamos ao episódio 4, onde outro fanservice completamente desnecessário destruiu o que havia sido montado de modo elogiável nessa temporada: o arco de Jaime.

O caso de Jaime com Brienne não levou a absolutamente lugar nenhum, já que era necessário fazer o personagem retornar aos braços de Cersei; e se era realmente importante fazê-lo retornar ao papel de assecla de Cersei porque o fazer abandoná-la em primeiro lugar? O envolvimento de Brienne com Jaime pareceu ter sido colocado em cena apenas para agradar os fãs que “shippavam” o casal. Sinceramente, se era pra fazer um fanservice respeitável, o Tormund seria um pretendente muito mais bem utilizado. 

Brienne, abandonada por Jaime e pelos roteiristas impiedosos.

O episódio 4 avançou e o norte ficou para trás. Agora a audiência teve que se voltar ao Trono de Ferro e à Cersei Lannister. Eu vi alguns comentários na internet (inclusive um tweet oficial da HBO) insinuando o seguinte questionamento: “quem é o maior vilão? Rei da Noite ou Cersei?”

Existem inúmeros fatores que tornam esse questionamento um intenso problema. Apesar de muitas atitudes de Cersei ao longo da história serem, no mínimo, questionáveis, não é justo julgá-la de modo maniqueísta, ao ponto de compará-la com uma entidade que se propunha a colocar em risco toda a vida no mundo de Gelo e Fogo. Ao colocar Cersei nesse patamar, a série toma um caminho raso e faz com que a personagem perca a profundidade que foi construída ao longo de toda a série. Quando se analisa o contexto que sempre girou em torno da vida da rainha Lannister, se tornam compreensíveis as ações temerárias que ela tomou. Veja, não estou dizendo que Cersei Lannister não é de fato uma vilã, só estou dizendo que há muitas camadas por baixo dessa vilania, o que não podemos dizer sobre o Rei da Noite, já que a série optou por não desenvolver nada sobre ele.

A leoa Lannister.

Bom, chegando ao polêmico episódio 5, tivemos a exploração do conceito de “rainha louca” atribuído a Daenerys Targaryen. Existem tanto consistências como inconsistências correlação a tornar Daenerys uma genocida. Sim, a série tem alguns exemplos de ações tirânicas de Dany, onde a rainha platinada não hesitou em torturar seus inimigos; momentos de denúncia de certa falta de lucidez. Contudo, como já disse, as temporadas 7 e 8 foram fizeram os acontecimentos se desenrolarem de modo frenético demais para um devido desenvolvimento e se Daenerys mostrou em alguns momentos uma ira que pudesse descambar pra tortura, também mostrou em vários momentos a capacidade de compaixão, amor e zelo pelos menos afortunados, mirando seu ódio contra os poderosos opressores. Não é a toa que ela cedeu ao conselho de Tyrion de não atacar Porto Real logo de cara, quando tinha três dragões e vários exércitos aliados, “eu não estou aqui para ser rainha das cinzas” dizia ela. Ou seja, é sim questionável ver Daenerys assando mulheres e crianças do modo mais impiedoso possível, ainda mais quando se sabe que o roteiro dos showrunners requeria a morte de Dany no último episódio, o que nos faz pensar que a destruição de Porto Real foi apenas um pretexto para matá-la no final.

Sobre a produção em torno do massacre em si, tivemos diversos momentos infelizes e incoerentes de roteiro. Os escorpiões derrubaram Rhaegal com uma facilidade absurda e afundaram vários navios cheios de Imaculados no episódio 4, no entanto no episódio 5 perderam totalmente seu poder de ataque, enquanto a velocidade e poder de destruição das baforadas de Drogon se elevaram absurdamente de repente, derretendo rocha pura com apenas uma língua de fogo. A Companhia Dourada também foi outra lástima; a mais importante ordem militar de mercenários dos livros, criada por sobreviventes da rebelião Blackfyre (Dança dos Dragões) e retratada de forma tão pobre, com um líder que mal falou durante a temporada.

Também tivemos o tal do “Clegane Bowl”, uma luta entre os irmãos Clegane que eu não quis acreditar que iria para a série por ser uma vontade de fãs e que nada tem a ver com o modo George R. R. Martin de reger uma história. Mais um puro fanservice desnecessário, além da luta em si ter sido bem fraca, mal executada.

Clegane Bowl.

Eu vou pular a morte de Cersei e Jaime, pode ser? Não vale muito a pena comentar sobre a laje que lhes ceifou a vida, muito menos vale a pena comentar a luta entre Jaime e Euron, um dos piores personagens de toda a série (saudades de vilões como Ramsay e Joffrey).

Chegamos enfim ao episódio final. Onde várias perguntas ficaram sem resposta plausível. Uma das coisas que mais me incomodaram ao longo das temporadas 7 e 8 foi a desconstrução pela qual alguns dos personagens passaram. Daenerys louca talvez tenha sido um desses casos; Varys, agindo de modo completamente estabanado e com traição aparente também foi bem constrangedor de se ver, sendo mais um personagem que os roteiristas fizeram mudar as atitudes drasticamente para poder matá-lo.

Tyrion, com seu plano de não atacar Porto Real logo de cara, deu o tempo necessário para Cersei se organizar contra Dany, o que só piorou as coisas pois mais pessoas do que ele queria morreram. Quando se analisa o Tyrion de temporadas passadas, sabemos que ele não agiria assim. Tyrion assumiu o posto de Mão do Rei na 2° temporada com o discurso de que não queria terminar como Ned Stark, que tentou evitar carnificina levando todos na conversa e honra, justamente o que Tyrion tentou fazer nas últimas temporadas e falhou miseravelmente. Sem falar que Daenerys não precisava queimar a cidade para tomar o Trono de Ferro, tendo que destruir apenas a Fortaleza Vermelha, o que diminuiria drasticamente o número de pessoas mortas nessa guerra de ego entre rainhas.

Drogon destruindo parte da Fortaleza Vermelha.

Voltando às perguntas não respondidas pelo episódio final, Por que Daenerys não executou Tyrion no momento em que ele jogou a insígnia de Mão da Rainha fora após ter confessado que a traiu libertando Jaime? Ela não estava louca? Por que Drogon não matou Jon Snow quando descobriu sua “mãe” morta? Aliás, o fogo de Drogon deveria ter destruído Jon snow, que estava muito próximo para se salvar da baforada; basta ver como as baforadas de Drogon estavam destrutivas no episódio anterior.

Por que os imaculados e Dothrakis não mataram o regicida Jon Snow? Verme Cinzento não havia ativado o modo “matem todos os que se opõem à Rainha Daenerys”??

Por que essa loucura de ainda existir formalmente uma Patrulha da Noite? Os caminhantes brancos foram destruídos e os selvagens não são mais inimigos dos reinos! O único motivo pra essa incoerência de roteiro foi para que Jon fosse mandado de volta à Muralha, ou seja, outro pretexto. Não se constroem roteiros baseados em pretextos, isso fere em muito a credibilidade de um enredo.

Por que os outros reinos também não reivindicaram independência assim como o Norte? Nenhum dos Sete Reinos escolheu a unificação, sendo todos obrigados por Aegon Targaryen. Mas na cena do conselho de Lordes Sansa fez parecer que só o Norte foi obrigado.

E, por fim, por que o Corvo de Três Olhos, que já falou diversas vezes que não era mais Brandon Stark, se tornou Brandon, o Quebrado, rei dos Seis Reinos?? Bran desde que adquiriu poderes sobrenaturais ficou em puro silêncio somente para poder chegar ao Trono e ser rei? É isso mesmo, produção?

Rei Brandon Stark.

Só mais um exemplo de como o roteiro da 8° temporada além de fraco, é sacrificado por uma piada: Não há a menor possibilidade de As Crônicas de Gelo e Fogo trazidas por Sam não citarem Tyrion Lannister. Nenhuma possibilidade.

Enfim, Game of Thrones é uma das maiores e melhores séries já produzidas, o que torna seu final ainda mais difícil de ser aceito. Estamos agora órfãos de Westeros e suas tramas, que deixarão saudades. Além disso, estamos no aguardo do livro 6 e dos spin-offs da HBO, que explorarão o passado de Westeros. Esperar pra ver e torcer para que a HBO aprenda com os inúmeros feedbacks negativos que a última temporada vem recebendo.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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