Séries

Irmãs do Sol: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 13 de fevereiro de 2019 | 16:04

Este é um episódio especial pois Cosmos nos apresenta algumas das mais brilhantes mulheres atuantes na ciência. Verdadeiras heroínas combativas que, antes de desbravarem os segredos do universo, tiveram de vencer várias adversidades resistentes ao desempenho de seus trabalhos. Através das observações categóricas e minuciosas dessas cientistas, a astronomia e a astrofísica passaram por grandes revoluções de conhecimento.

Como mostrado ao longo da série, a relação humana com as estrelas volta à tona no episódio 8, quando Neil nos revela o caráter mitológico por trás da compreensão estelar dos povos antigos; em especial, Tyson nos conta algumas das estórias mais marcantes envolvendo o brilhante conglomerado de estrelas de Plêiades.
É interessante refletir sobre a incrível capacidade imaginativa humana em um momento de nossa história onde tão pouco relacionado a tecnologia estava disponível. Se torna inviável qualquer concepção da realidade que não a sobrenatural e fantástica em um contexto como esse.

As diferentes criações míticas de plêiades. A imagem acima, na América do Norte, retrata as sete índias da tribo Kiowa que, segundo as lendas, ascenderam aos céus como as estrelas do conglomerado após escaparem de um ataque de ursos.
A imagem abaixo, na Grécia, retrata as sete lindas filhas de Atlas que, fugindo desesperadas do assédio de Órion, ascenderam aos céus após Zeus ouvir suas súplicas por socorro.

Eu já falei isso algumas vezes durante esses artigos mas vale ressaltar como o artifício de animação usado pelos produtores de Cosmos eleva em um grau notório a experiência de assistir a essa série. Em momentos como esses o contorno das narrativas dos episódios deixa de ter o caráter documental para adquirir aspecto dramático, o que cria um elo de identificação entre o público e a série. Isso fica claro quando Neil deGrasse Tyson aborda temas culturais e sociais por trás das conjecturas científicas levantadas.
Quando somos apresentados a duas das grandes protagonistas do episódio, já estamos mergulhados nessa atmosfera audiovisual, o que nos permite maior ternura na hora de conhecê-las. Claramente isso não ocorreria se fôssemos apresentados ao trabalho destas cientistas no modo engessado de um programa puramente documental.

Contrariando o mundo masculino da Harvard de 1901, Annie Jump Cannon e Henrietta Swan Leavitt chefiavam um grupo de mulheres que desenvolviam estudos astronômicos.

Annie, Henrietta e outras cientistas de um grupo formado pelo astrônomo Edward Charles Pickering, trabalhavam em diversas análises das estrelas afim de apontar as características mais detalhadas sobre os tipos possíveis das mesmas. Essa iniciativa permitiu que vastas descobertas fossem possibilitadas, desde informações como distâncias, tamanho e o grau de expansão do universo, até singularidades relacionadas às substâncias das estrelas.
Annie Jump Cannon chegou a catalogar 250 mil estrelas antes de se aposentar. Ela criou um esquema categórico para classificar as estrelas de maneira lógica e que seria muito importante para os trabalhos da terceira grande personagem dessa história. Henrietta Swan Leavitt, por sua vez, criou uma lei até hoje utilizada por astrônomos para identificar as diversas extensões do cosmos.
Os aprofundamentos nestes trabalhos levaram esse grupo de cientistas a revisarem os conceitos da astrofísica, trazendo maiores informações sobre espectroscopia, ou seja, a análise dos espectros de luz das estrelas (mais sobre astrofísica nesse outro artigo). As conclusões explanadas por Annie determinaram que os mesmos elementos químicos presentes na Terra também existem nas estrelas.

Cecilia Payne. Impossibilitada de se graduar em ciências na Inglaterra de 1923 por ser mulher, a amante de astronomia se viu obrigada a migrar para os EUA, onde descobriu que as mulheres cientistas tinham mais chance.

Então surge Cecilia Payne, a terceira grande personagem do episódio 8 de Cosmos. Quando a britânica chegou em Harvard, o grupo de estudo da (então idosa) Annie ainda existia e, apesar de todos os temores de Payne, a jovem foi muito bem recebida, rapidamente se enquadrando no dia-a-dia das respeitadas senhoras.
A contribuição de Cecilia foi enorme. Utilizando seu conhecimento em física nuclear, a cientista utilizou a rede de categorias criada por Annie anos antes para desenvolver conjecturas mais densas sobre as composições químicas das estrelas, chegando à conclusão de que as estrelas são compostas quase que inteiramente de hidrogênio e hélio. Contudo, seus estudos acabaram por confrontar o conhecimento científico estabelecido da época, que dizia que a composição química das estrelas era bem mais variada, aparentando a composição química da Terra. Cecilia Payne acabou sofrendo a pressão social machista e se calou.

Quatro anos depois de ter a sua tese rejeitada, as descobertas de Cecilia acabaram sendo indubitavelmente reconhecidas e os créditos da britânica foram devidamente respeitados. Desde então, os estudos astronômicos têm sido auxiliados em muitos aspectos pelo conhecimento construído por essas mulheres.

As estrelas do conglomerado de Plêiades estão próximas umas das outras por atração gravitacional mútua gerada no momento de seu nascimento. Porém, com o tempo, o conglomerado se separará, afastando as estrelas.

São vastas as características das estrelas. Tamanhos diversos, temperaturas, idades, e outros tantos fatores que influenciam na estrutura do cosmos de modo contínuo e sistêmico. O ciclo da vida de uma estrela se traduz em uma luta equilibrada entre a enorme energia de seu núcleo atômico (expandindo-a) e sua massiva gravidade (comprimindo-a). Quando esse equilíbrio cessa de existir, os destinos que aguardam uma estrela são muitos, dependendo basicamente de seu tamanho.

O núcleo estelar passa a perder a luta contra a gravidade, encolhendo lentamente enquanto a superfície se expande, aumentando o seu brilho. O colapso da estrela se inicia após a exaustão do núcleo, tornando instáveis as camadas superiores. A partir de então, o interior da estrela se aquece o suficiente para ocasionar a fusão de hélio em elementos como oxigênio e carbono. Chega o momento em que as camadas superiores de uma estrela em colapso se desprendem e esvaem-se pelo universo, expondo o núcleo em alta temperatura. As diferenças de dimensão se tornam importantes nesse estágio de morte das estrelas, pois ditam se uma estrela se tornará uma do tipo anã (o que ocorrerá com o nosso sol), uma supernova, uma hipernova, ou até mesmo um buraco negro, se o tamanho de determinada estrela for grande demais para suportar a absurda gravidade deixada, criando o horizonte de eventos que suga até mesmo a luz.

Apesar de o processo de colapso estelar durar muito tempo, a explosão de uma supernova dura segundos.

Mas, assim como muitas estrelas morrem, outras tantas ganham vida. E mais! As estrelas ganham vida a partir da matéria agrupada em nuvens interestelares deixadas para trás por camadas superficiais de energia e gás criadas por estrelas em colapso. Tal energia é reagrupada pela gravidade, dando luz a novas estrelas, o que não deixa espaço para desperdício no cosmos.

Entender que os elementos químicos que formam tudo o que existe aqui neste pequeno planeta azul surgem de diversas transformações químicas originadas em corpos celestes gigantescos representa uma grande conexão existencial com o universo. Uma conexão científica que está presente em todos os cantos de cosmos e em diferentes escalas, que dá asas a concepções filosóficas diversas. Como Neil deGrasse Tyson bem fala “somos todos filhos do sol” por sermos fruto de matéria estelar.

Um brinde a Annie Jump Cannon, Henrietta Swan Leavitt e Cecilia Payne, bem como a várias outras mulheres da ciência, que nos proporcionaram grandes descobertas científicas.

Até a próxima, camaradas cósmicos.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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