Séries

O garoto elétrico: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 22 de fevereiro de 2019 | 21:24

“Nada é maravilhoso demais para ser verdade se for consistente com as leis da natureza.”
Michael Faraday

A relação entre a luz, a eletricidade e magnetismo é o fenômeno chave do episódio 10 de Cosmos. O principal personagem dessa história é um dos mais importantes heróis da ciência, o homem que, com suas incríveis descobertas, moldou o mundo moderno.
Michael Faraday é, talvez, o maior exemplo de superação social na história dos heróis da ciência. Um garoto de família muito pobre, nascido na periferia da Londres do século XVIII, em um dos países com maior consciência de divisão de classes do mundo. Uma vida que para muitos não tinha a mínima perspectiva de sucesso. Contudo, o conhecimento de Faraday foi impactante para complementar as conjecturas feitas por Newton sobre o movimento dos planetas, séculos antes, bem como seria de suma importância para os trabalhos de Einstein sobre a Relatividade.

O nascimento de Michael Faraday.

A direção desse episódio compreendeu como era importante contar com alguns detalhes a história pessoal de Michael Faraday, como foi construído o amor do grande físico pela eletricidade. Nessa abordagem narrativa os aspectos científicos a serem ilustrados mais adiante se misturam com a luta que foi a vida de Faraday, delineando a relação de Faraday com a ciência como uma verdadeira filosofia de vida, o amor ao conhecimento ao longo de toda a sua trajetória.
Assim, acompanhamos sua desconexão na infância com o hostil cotidiano didático da escola, o ambiente religioso de sua família humilde, assim como sua primeira experiência na labuta, quando trabalhava na encadernação de livros.

Aos 13 anos de idade, Faraday teve o seu primeiro contato com a ciência, lendo durante a noite os livros que encadernava durante o dia.

A vida de Faraday mudou quando conheceu Humphry Davy, o grande cientista da época, que havia preenchido a tabela periódica com a descoberta de vários elementos químicos. Davy utilizava a Instituição Real de Londres para dar espetáculos de ciência ao público comum. Faraday comparecia aos eventos de Davy e, com o tempo, acabou sendo contratado para ser assistente do cientista famoso. O novo emprego de Faraday significou maior aprofundamento científico para o jovem de 21 anos, ávido por conhecimento.

A primeira imensa descoberta de Faraday surgiu quando Humphry Davy criou uma experiência onde uma agulha de bússola mudava sua direção natural ao polo norte da Terra quando atraída por um circuito elétrico. Apesar de imaginar que havia alguma ligação entre a eletricidade e o magnetismo, Davy não conseguiu compreender como essa conexão se dava e qual fim prático poderia advir daí.
Faraday dedicou todo o seu tempo livre após seu patrão lhe passar a incumbência de tentar resolver o problema; o resultado disso foi a criação do conceito de motor. Era o início de uma revolução.

Um pedaço de metal, uma tigela de Mercúrio e um pedaço de cortiça formavam o primeiro motor. O início de uma transformação sem precedentes para a ciência industrial.

Michael Faraday se tornou popular em Londres, a nova sensação científica. Isso incomodou Humphry Davy, que naturalmente perdeu um pouco de seu status. Então Davy tratou de tirar Faraday dos holofotes, mandando-o levantar estudos sobre o vidro ótico, uma missão que requeria a Faraday desvendar o segredo de estado na Bavária, onde os vidros de maior qualidade do mundo eram desenvolvidos por Joseph Fraunhofer, o herói do episódio 5 de Cosmos (mais sobre aqui).
O ego de Davy e a ignorância de Faraday correlação à fabricação de vidros tomaram 4 anos infrutíferos da vida do assistente. Após a morte de Davy, o assistente, o menino da favela, agora era o diretor do Instituto Real de Londres. Faraday voltou aos seus estudos com eletricidade porém guardou consigo um tijolo de vidro como lembrança da época em que viveu o insucesso cotidiano.
Com sua nova autoridade, Michael Faraday iniciou uma série de palestras científicas anuais de natal. Uma tradição que começou em 1825 e continua até hoje.

Algumas das principais palestras científicas dadas ao longo da história do Instituto Real de Londres.

As descobertas incríveis de Faraday continuaram a maravilhar o meio acadêmico e o público. Utilizando o eletromagnetismo, unindo um circuito elétrico e um imã, agregando o movimento do imã, Faraday criou o primeiro gerador. Hoje, as hidrelétricas são um grande exemplo dessa combinação, para se ter ideia da magnitude das descobertas de Michael Faraday.
Mas, no auge de sua carreira, Faraday acabou se deparando com uma de suas maiores dificuldades. Aos 49 anos de idade, uma doença degenerativa passou a afligir sua memória, causando uma profunda depressão em Faraday, que nunca se recuperou totalmente. Todavia, a mais extraordinária descoberta de Faraday ainda estava por vir.

As experiências de Faraday com a junção da eletricidade com o magnetismo formaram toda a sua carreira científica. Isso o levou a questionamentos cada vez mais profundos correlação à natureza dos fenômenos do eletromagnetismo. Faraday compreendia que o “campo” em torno dos circuitos elétricos e o “campo” em torno de imãs exerciam um significado maior, o que era intensificado por sua crença na unidade da natureza. Assim, Faraday passou a imaginar se a eletricidade e o magnetismo poderiam se unir a um terceiro fenômeno natural: a luz.

Após diversos experimentos mal sucedidos, Faraday conseguiu provar a conexão do eletromagnetismo com a luz, utilizando seu antigo tijolo de vidro como catalisador da experiência. Alguns dos resultados de hoje para tal descoberta? Simplesmente a sua TV e o seu Smartphone.

A descoberta da conexão entre a luz, eletricidade e magnetismo era profunda, um dos maiores sucessos de Faraday. Contudo, suas vitórias na ciência caminhavam lado a lado com sua depressão. Aos 60 anos de idade, a reclusão se tornou uma realidade cada vez mais aparente, fazendo com que as pessoas passassem a considerá-lo parte do passado. Mas se houve algo que nunca mudou em Faraday foi a sua curiosidade, o que o levou a se aprofundar ainda mais sobre a possibilidade do funcionamento natural, sem influência humana, da unidade entre a luz e o eletromagnetismo. A escala dos estudos de Michael Faraday estava aumentando a nível astronômico.

A Terra tem um campo magnético, usado historicamente pelos navegadores através da bússola. Nosso planeta é um imã gigante, graças ao seu núcleo de ferro líquido em constante movimento, agindo como um fio transportando corrente elétrica. Faraday provou com o eletromagnetismo que correntes elétricas produzem campos magnéticos, o que, no caso da Terra, é extremamente importante para a manutenção da vida pois o campo magnético em torno de nosso planeta azul nos protege de raios cósmicos, que são nocivos para a nossa biosfera.

O campo magnético da Terra a repelir raios cósmicos advindos do sol é uma representação real do funcionamento natural da relação entre o eletromagnetismo e a luz.

Faraday chegou à conclusão de que os movimentos dos corpos celestes eram governados por linhas de energia invisíveis que geravam campos gravitacionais a se relacionarem entre si no sistema solar e em todo o universo. Sua descoberta mais extraordinária expandia o que Isaac Newton havia descoberto sobre a gravidade e abriria as portas para que Albert Einstein pudesse se aprofundar não só nas diversas intensidades das forças gravitacionais do universo, como também na manipulação causada pela relação dessas gravidades com o espaço-tempo.
Para o meio acadêmico, Michael Faraday finalmente havia ido longe demais, sua imaginação havia ultrapassado sua estupenda capacidade inventiva e muitos chegaram a zombar de sua nova descoberta. Alguns até tentaram levar os novos estudos de Faraday a sério mas cobraram provas matemáticas que pudessem dar suporte a noções tão gigantescas.
Nesse momento a infância pobre de Faraday pesou como nunca pois se havia um campo do conhecimento onde Faraday era extremamente limitado era a matemática.
Contudo, houve alguém que não considerou as ideias de Faraday um disparate. James Clerk Maxwell era um famoso matemático já aos 20 anos de idade e, interessado pelo trabalho de Michael Faraday, leu tudo o que o físico havia escrito sobre eletromagnetismo, o que o levou a acreditar que havia verdade em sua última grande descoberta.

Maxwell traduziu as noções astronômicas de Michael Faraday em leis matemáticas que causaram uma nova revolução científica, que impacta profundamente a sociedade mundial até hoje.

O episódio 10 de Cosmos é, sem dúvidas, um dos mais sensacionais. É um episódio que conta como um homem de origem simples venceu vários limites impostos por um contexto socialmente hostil para se tornar um dos maiores cientistas de todos os tempos. É um episódio que mostra como o mundo de pequenas vilas se transformou, por meio da tecnologia, em um organismo intercomunicante, conectado pela velocidade da luz aos mais distantes locais da Terra e ao universo.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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