Séries

O mundo livre: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 9 de abril de 2019 | 01:52

O penúltimo episódio da primeira temporada de Cosmos retoma as ações destrutivas da civilização mundial desde a Revolução Industrial, que colocam em risco toda a vida e natureza de nosso planeta em um espaço de tempo não tão longo quanto se imagina. O aquecimento global se faz presente, sendo necessário não só expô-lo, como também trabalhar para a criação e veiculação de anternativas para vencê-lo. E ainda por cima, nesse meio tempo, é preciso enfrentar grandes líderes globais que afirmam que tal fenômeno não existe, que se trata de “imaginação de cientistas”, como afirma Donald Trump, por exemplo.

Abrimos o episódio com uma visita ao planeta Vênus, que sob diversas análises científicas, nos mostra que no passado, quando ainda muito jovem, era um planeta muito parecido com o nosso em sua atmosfera rica a tornar o ambiente uma espécie de paraíso. Hoje, bilhões de anos depois, Vênus pode ser considerado um inferno existente sob um aquecimento global de escala absurda, munido de um poderoso efeito estufa que se adensou de tal forma na atmosfera do planeta, que nem mesmo a luz do sol consegue penetrar e tocar seu solo. Mas se Vênus era bem parecido com a Terra o que aconteceu para que se tornasse tão diferente?

Os penhascos brancos de Dover (Inglaterra) nos contam o que diferenciou os destinos de Terra e Vênus. Algas microscópicas presentes no fundo do oceano trataram de absorver lentamente a absurda quantidade de carbono expelida por vulcões. Essa contingência natural foi essencial para que a Terra tomasse um rumo diferente de Vênus.

Basicamente, imensas camadas de carbono e calcário se formaram no fundo do oceano, graças ao trabalho de absorção das algas multicelulares e outros organismos. Com mudanças tectônicas, grande parte desse depósito de carbono foi emergido, como no caso dos penhascos de Dover. Isso ocasionou um equilíbrio natural, um limite na quantidade carbono presente em nossa atmosfera. Como Vênus perdeu seus oceanos para o espaço há bilhões de anos, quando sua atmosfera ainda não era perfeita, não ocorreu o mesmo controle de carbono que aqui na Terra, o que desencadeou uma série de catástrofes no ambiente de Vênus.

Veja, a presença de carbono no ar é um fator muito importante para a vida, só é preciso seguir os passos da natureza e controlá-lo. Sem carbono nenhum, a Terra seria um globo de gelo e não haveria possibilidade alguma de vida nas temperaturas negativas extremas que aqui se estabeleceriam. Aumente a quantidade de carbono apenas um pouco e as temperaturas do planeta se elevam de maneira brutal, desertificando os continentes, derretendo geleiras, desestabilizando o clima global, entre outros terríveis desencadeamentos.

A Terra sendo irradiada pelo sol e aquecida além do controle pelo efeito estufa.

Se a natureza trabalhou durante bilhões de anos para manter o carbono de nossa atmosfera sob controle, nos últimos séculos as civilizações humanas têm desafiado esse equilíbrio natural ao despejar sem devaneios uma quantidade gigantesca e sem precedentes de carbono no ar, através do uso industrial de petróleo, carvão e gás natural. A camada de carbono e metano (outro poderoso agente do efeito estufa) impedem que grande parte da irradiação solar saia de nossa atmosfera, elevando a temperatura do mesmo além dos limites aceitáveis, colocando em risco toda a vida na Terra a longo prazo.

Diversos se tornaram os estudos que começaram a surgir correlação a essa realidade. Cientistas de vários locais se propuseram a levantar minuciosas contagens da quantidade de carbono no ar em diferentes momentos para atestar o aumento do elemento químico em nossa atmosfera, bem como apontar o quão nocivo tal crescimento pode se tornar.

Mapa do aumento de temperatura global, baseado no histórico de estudos levantados por diversos cientistas, ilustra que em meados dos anos 2050 a Terra começará a sofrer muito com o aquecimento global. Um indesejado prognóstico para as ações industriais das sociedades contemporâneas.

Aqueles que são contra a ideia de aquecimento global apontam que o planeta se aquece e esfria de tempos em tempos, que a ciência não tem controle sobre a meteorologia em larga escala de tempo, e que, se a quantidade de carbono na atmosfera está realmente aumentando, isso é obra da natureza e não dos humanos. Bem, a quantidade de carbono e metano que nossas indústrias despejam no ar já é muito maior do que a despejada por vulcões, por exemplo. Além disso, como bem explicado por Neil deGrasse Tyson, os críticos do efeito estufa se focam no clima da Terra (muito volátil em pequenos intervalos de tempo), em vez de se focar na temperatura do planeta (que em uma escala de tempo maior cresce indubitavelmente).

Mas qual seria a solução afinal? Neil nos apresenta dois importantes personagens do ramo da energia alternativa. Na Paris de 1878, Augustin Mouchot encantou a plateia de sua exposição científica ao demonstrar o poder da energia solar, um conceito muito novo na época, o que tornava Mouchot um visionário. A energia do sol é infinitamente mais abundante que a de combustíveis fósseis, além de ser completamente limpa. Todavia, hoje existem muitos complicadores que ultrapassam os limites da ciência e engenharia que impedem o uso industrial em escala global da energia solar.

Augustin Mouchot se apresentava na feira de exposição universal de Paris, onde inventores apresentavam suas visões científicas para o mundo moderno.

O financiamento para a pesquisa de Mouchot não durou muito tempo. O preço do carvão na época de sua pesquisa era muito barato, o que minimizou o interesse de grandes industrialistas pela energia solar.

Em 1913, o americano Frank Shuman tinha um plano ainda mais desafiador. Tornar a energia solar de uso global, além de mitigar os problemas de agricultura enfrentados por regiões desérticas, como grande parte da África. Frank não era nenhum cientista mas possuía uma grande mente para invenções; sua usina de energia solar voltada para irrigação encantou as autoridades da Inglaterra e Alemanha, o que lhe rendeu um financiamento de suas ideias. Contudo, com o estouro da Primeira Guerra Mundial, suas usinas foram desmontadas para fabricação de munição, acabando com o seu sonho.

A invenção de Shuman conseguiu a proeza de tornar a energia solar mais barata que o carvão.

Existem outras formas de energia alternativa às fósseis, como a energia eólica, por exemplo. Mais uma vez a raça humana se vê em um momento onde a adaptação em prol da sobrevivência deve ser prevalecer, como os nômades, que pararam de viver vidas inteiras de migração após descobrirem as maravilahs da agricultura. E dessa vez temos todas as ferramentas disponíveis, todos os avisos sendo alardeados, simplesmente não temos desculpas.

Até a semana que vem, amigos, quando nossa viagem pelo cosmos finalmente chegará ao fim.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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