Séries

Os imortais: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 17 de março de 2019 | 05:05

O episódio 11 de Cosmos volta a explorar os mistérios da vida. As possibilidades sobre como ela pode ter começado na Terra, como pode ter se espalhado pelo universo e, enfim, como a vida pode acabar sendo extinta em nosso mundo.
Classifico esse episódio não só como um estudo da vida, mas como uma análise da humanidade pois a série desenvolveu, ao longo de todos os seus episódios, um caráter existencialista, onde os produtores buscaram elevar a importância da raça humana.
Esse louvor à humanidade expressado por Cosmos não tem natureza no sentido da arrogância de que somos os seres dominadores da Terra, mas sim no sentido de que muitas vezes esquecemos as possibilidades de usarmos nossa inteligência para melhorar nosso modo de vida e parecemos preferir caminhar para os mais variados tipos de destruições, por motivos fúteis, minimalistas.

Enheduanna é historicamente considerada filha do primeiro imperador do mundo. Ela viveu na antiga Mesopotâmia e eternizou sua existência através do então revolucionário uso da escrita.

O episódio começa com um passeio pela história. A Mesopotâmia é o berço das civilizações, assim como o lugar onde se criou o conceito de escrita. Como amante da história, me senti tomado de antemão pela narrativa do episódio 11.
É nessa parte que também conhecemos um grande épico de heroísmo, talvez o mais antigo do mundo. A lenda de Gilgamesh é também uma história de imortalidade; um homem de força sobrenatural que buscava desafios cada vez mais brutais, inimigos que pudessem ameaçar a sua poderosa vida. Então um dia, pelas revelações de um sábio chamado Utnapishtim, Gilgamesh descobriu que o mundo seria inundado por um grande dilúvio, no entanto um dos deuses o havia dado a missão de construir uma imensa arca de madeira para que seus familiares e os animais fossem salvos.
Imagino o que você deve estar pensando ao ler uma história com essas características. Bom, sem me delongar muito no assunto, é relevante dizer que a história da epopeia de Gilgamesh foi escrita mil anos antes da história de Noé. Reflita sobre a originalidade de contos épicos.

A arca de Gilgamesh, o homem que conseguiu sua imortalidade cultural.

A linguagem é apenas um dos aspectos da vida que atravessam o tempo, desafiando a morte. A imortalidade pode adquirir diversos aspectos e neste episódio novamente revisitamos os detalhes do código genético da vida terrestre para compreendermos a origem da vida sob uma outra ótica, uma que nos permita imaginar até que ponto a evolução da vida pode perdurar no universo. Quais as condições que favoreceriam sua propagação e manutenção pelo cosmos.

A origem da vida é um mistério, sendo uma das tarefas científicas mais importantes. Observando as alternativas mais plausivelmente aceitas pelo meio científico, somos levados por Neil até Marte. O planeta vermelho guarda um histórico de transporte interplanetário de rochas com a Terra e outros planetas do sistema solar; transporte esse causado por choques de meteoritos que literalmente lançaram fragmentos de rochas marcianas para o espaço. O mesmo ocorreu com a Terra em seus primeiros milhões de anos de existência. A hipótese para o surgimento da vida reside na composição de muitas dessas rochas, que podem carregar dentro de si micróbios e bactérias, ou seja, estamos falando de um transporte interplanetário de vida microbiótica.

Muitos tipos de micróbios e bactérias sobrevivem ao vácuo e radiação intensa presentes no espaço sideral.

Um dos maiores questionamentos presentes na humanidade reside no mistério da vida extraterreste. Afinal de contas, estamos sós no universo? E se não estamos, como são os seres alienígenas? Seriam alguns deles parecidos conosco? Pensariam como nós pensamos? Agiriam como nós agimos?
Nessa parte do episódio viajamos até 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira vez na história em que o ser humano manifestou sua existência para o universo, através de uma transmissão de ondas de rádio em direção a Lua. Ao serem rebatidas pela superfície lunar, parte das ondas de rádio voltaram para a Terra, onde os engenheiros americanos responsáveis pelo experimento interestelar puderam captar o seu eco. Contudo, a maior parte das ondas transmitidas naquele dia permaneceu em uma viagem cósmica infinita, através das estrelas.

O projeto Diana foi considerado a primeira experiência interestelar da história.

O projeto Diana foi apenas o começo de uma era de mensagens humanas enviadas em direção ao espaço aberto. Com o advento das redes de televisão e rádio, bem como sistemas de comunicações por radar cada vez mais sofisticadas, passamos a transmitir o que nos rodeia de modo ininterrupto e vasto através de ondas que se propagam incessantemente e na velocidade da luz na direção das estrelas e além. As ondas de transmissão cada vez mais longínquas carregam mensagens de nosso passado, enquanto as ondas ainda mais próximas de nosso planeta carregam o nosso presente.

A Terra ao centro, emanando diversas ondas de transmissão ao espaço desde a metade do século XX.

Assim como nós podemos transmitir as nossas histórias para as estrelas, também os alienígenas (algum tipo de raça que evoluiu ao ponto de criar uma civilização tecnológica) seriam capazes do mesmo. Pelo que sabemos, se tais extraterrestes existirem, eles podem já ter criado formas de tecnologia de transmissão que nós humanos ainda não somos capazes de compreender. Se isso for verdade, quantas mensagens alienígenas nós não perdemos?

Mas e se, por exemplo, uma civilização alienígena veio a surgir, evoluir e depois sucumbir completamente? Isso é completamente plausível, investigando apenas a história das civilizações humanas conseguimos enxergar diversas maneiras de uma civilização sucumbir. Neil utiliza a história do declínio da Mesopotâmia, que envolveu intensa destruição causada por uma repentina mudança climática e recorrência de guerras com povos estrangeiros, para demonstrar como não importa o quão opulenta uma sociedade pode parecer, ela não é invulnerável.
Trilhando os exemplos de como uma civilização pode acabar sendo destruída, o episódio nos mostra como o histórico das grandes navegações foi crucial para o grande colapso das civilizações nativas americanas. Embora os europeus considerem que venceram e colonizaram os nativos das Américas por serem abençoados e terem armas superiores, a realidade mostra que os patógenos de doenças trazidos pelos europeus e inexistentes no então novo continente foram responsáveis pela morte em massa dos povos ameríndios.

A varíola foi apenas um dos variados tipos de doenças transportados geneticamente pelos europeus conquistadores.

Hoje, a civilização global subsiste baseada em sistemas econômicos que não consideram os males do descaso com a natureza, enquanto visam apenas o lucro desenfreado. As mudanças climáticas que ocasionam o aquecimento global, bem como a falta de medidas governamentais empáticas que fomentem a mitigação da desigualdade social em todo o mundo, levam a humanidade a uma estrada cujo destino é conhecido por muitos. O fim dessa viagem não é nada bom, mas ninguém parece de fato se importar. E não é só a vida humana que está em jogo, toda a vida na Terra corre sérios riscos de hereditariedade.
O ser humano já provou em diversas oportunidades que possui uma inteligência de capacidade fenomenal, inteligência essa que deveria ser canalizada em prol da sobrevivência mútua e do bem estar social.
Esse episódio de Cosmos vai além da ciência, em busca de uma verdade vital que possa ser resgatada por todos nós.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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