Séries

Os mundos perdidos do planeta Terra: Uma odisseia através do cosmos

Autor(a): Bruno Birth | 17 de fevereiro de 2019 | 23:00

Os cientistas buscam cada vez mais um aprofundamento no que concerne ao conhecimento do que jaz nos mais distantes horizontes cósmicos, viajando cada vez mais longe, em distâncias astronômicas. Mas e os segredos que o nosso próprio mundo carrega? Longe de ter sido completamente explorada, a Terra é o personagem central do episódio 9 de Cosmos. A história de nosso planeta, bem como o nosso grau de relação com este corpo celeste, nos diz muito sobre nossa pequenez em relação ao universo.
Logo no início do episódio, Neil utiliza novamente o calendário cósmico (mais sobre aqui) para nos levar a uma época onde a quantidade de oxigênio na atmosfera era muito maior. A formação do que hoje conhecemos como continentes era muito diferente, assim como as constelações a adornar os céus. Há 350 milhões de anos atrás, a vida na Terra era muito diferente.

A quantidade de oxigênio no ar nunca foi tão grande quanto nessa época, o que manipulava, entre vários aspectos da natureza, a anatomia dos insetos, tornando-os maiores. Isso acontecia pois os insetos não têm pulmões, sendo o oxigênio absorvido por cavidades externas de seus corpos.

O que ocasionava esse “reino do oxigênio” na Terra? Nessa parte do episódio presenciamos o nascimento da era das árvores. Um tipo de vegetação que surgiu para dominar o globo, sem ser combatida por forças destrutivas por muito tempo, uma vez que fungos, bactérias e cupins demorariam milhões de anos para desenvolverem capacidades evolutivas para viver do consumo de árvores. Eu acho realmente incrível como a natureza funciona de modo sistêmico e lógico, dentro de uma cadeia de eventos aleatórios e complexos. Veja, a vida orgânica teria grandes dificuldades para se desenvolver se as árvores não tivessem erguido o seu império de propagação de oxigênio no ar.

Outro desencadeamento de eventos que até hoje nos atinge partiu dessa época. As árvores nasciam, cresciam e morriam aos montes e, com o passar do tempo, acabavam sendo enterradas por todo o planeta. Imagine centenas de bilhões de árvores enterradas e todas as reações químicas que isso possibilitaria.

Fóssil de uma árvore de 300 milhões de anos na Nova Escócia, um local onde as camadas rochosas contam histórias da natureza do planeta Terra.

As consequências do império das árvores foram extremas pois possibilitaram o desenvolvimento da vida, assim como quase a ceifou completamente no fim do período permiano. Neil novamente nos leva aos Salões da Extinção (mais sobre aqui) para mostrar como as absurdas erupções vulcânicas da época, no local que hoje conhecemos como Sibéria, aqueceram o solo e ativaram imensos depósitos de carvão no qual bilhões de árvores enterradas haviam quimicamente se transformado ao longo de 50 milhões de anos.
A poluição causada por esse evento foi catastrófica e inigualável, destruindo a estabilidade do clima da Terra, entre muitas outras consequências nesta era que ficou cientificamente conhecida como “A Grande Morte”, quando 9 em cada 10 seres vivos de cada espécie sucumbiram. Demoraria milhões de anos para a vida se recuperar.

Serra de Guadalupe, extensão que atravessa o Texas e o Novo México, é um outro tipo de registro da história da Terra: a relação tectônica entre os oceanos e o solo.

Uma das coisas mais interessantes mostradas no episódio 9 de Cosmos é a frequente mudança à qual a formação terrestre de nosso planeta sempre esteve sujeita. Florestas que antes eram grandes desertos escaldantes, planícies de campos floridos que se transformaram em mares profundos. São vários os exemplos de imensos acidentes geográficos causados pela distribuição da crosta terrestre, na qual eu e você pisamos neste exato momento.
A serra de Guadalupe é um grande personagem dessa história topográfica. Uma vez parte do fundo do oceano (há 275 milhões de anos), bem como fonte de abrigo para vários organismos marinhos, hoje a cadeia rochosa se eleva protuberante em direção aos céus para contar aos humanos a história de seu passado, inscrito ao longo de sua extensão. A serra de Guadalupe é o maior recife de fósseis do mundo.

A pangeia pede passagem para demonstrar um planeta Terra diferente, um planeta que, há 220 milhões de anos atrás, estava preste a alterar sua configuração de super continente para dividir-se em várias porções terrestres.

O primeiro atlas da história, desenhado pelo explorador Abraham Ortellius, em 1570.

Ortellius foi o primeiro a perceber o padrão de “quebra-cabeça” que os continentes pareciam logicamente ilustrar, o que o levou a concluir que, em algum momento do passado, todas as partes da Terra deveriam ter sido apenas uma. Mas a falta de dados científicos tornou sua conclusão um mero palpite desdenhado pelo meio acadêmico. Uma ignorância que iria perdurar por mais alguns séculos.
Eis que o artifício de animação toma espaço para nos apresentar mais dois heróis da ciência.

Alfred Wegener, um astrônomo e meteorologista alemão, fez o que Ortellius não pôde e buscou várias pistas científicas para construir um trabalho acadêmico para solidificar seu conhecimento sobre o passado da Terra. Assim como o explorador Abraham Ortellius, Alfred Wegener também chegou à conclusão do super continente, defendendo a teoria da deriva continental como o fator separador dos continentes. A pesquisa de Wegener não respondia a todas as perguntas e acabou também se tornando motivo de zombaria no meio acadêmico. Veja, muitas vezes é difícil trilhar o caminho da ciência quando conhecimentos muito bem estabelecidos são questionados.
Coube a Marie Tharp o papel de levar a verdade adiante nesse contexto tão difícil onde reinou o preconceito e ignorância por muito tempo. Graduada em geologia e matemática, Marie teve de aturar muito machismo para permanecer ativa no mundo científico. Utilizando dados de mapeamento oceânico (desenvolvidos por sonar) e os dados de Wegener, Marie juntou as peças do quebra-cabeça para mostrar que a teoria da deriva continental era real.

Alfred Wegener lutou durante a 1° Guerra Mundial e acabou ferido, o que lhe deu tempo para começar seus estudos sobre a Terra.
Marie Tharp foi a responsável pela criação do primeiro verdadeiro mapa do planeta Terra, incluindo o fundo dos oceanos.

Indo para o fundo do oceano, descobrimos um outro planeta Terra, um que não chegou a ser explorado completamente pelo homem. Um verdadeiro reino da escuridão e da pressão. É nas profundezas do mundo que estão os segredos da deriva continental de Wegener, a lógica por trás da formação das placas tectônicas que elevam os continentes sobre os mares.
O núcleo da Terra é de ferro líquido e muito quente. Um manto viscoso a envolver o núcleo equilibra o calor intenso da parte mais profunda do planeta e a camada de esfriamento que forma a base da crosta terrestre. Essa relação não é estática, ou seja, gera movimentos que, de tempos em tempos, faz com que a crosta terrestre atinja ponto de ruptura, causando os tremores que conhecemos como terremotos e maremotos. Em grande escala, esses eventos governam a localização dos continentes.

Em escala, a crosta terrestre é tão fina quanto uma casca de maçã.

As alterações topográficas da Terra causam diversos tipos de consequência na natureza. Aspectos como clima, formação geográfica e desenvolvimento da vida são alguns dos mais marcantes. Os movimentos gravitacionais da Terra e seus planetas vizinhos também foram personagens atuantes nas alterações da natureza da Terra, uma vez que ao longo de milhões de anos, acabaram alterando o eixo de rotação de nosso planeta, alterando a quantidade de luz solar que alcança os polos, resultando em modificações nas quatro estações climáticas.

A formação de deltas de rios em contato com os mares, em um momento de intervalo entre eras do gelo interrompeu um histórico de peregrinação humana. A forma como os movimentos da Terra afetam o clima, a evolução da vida e a inteligência se misturaram para dar aos humanos os meios de manipular os deltas de rios para criar as primeiras civilizações.

Hoje vivemos um período interglacial que se acredita que durará ainda mais 50 mil anos. Contudo, as ações industriais do homem afetam o clima da Terra de maneira potencialmente catastrófica parecida com a causada pela natureza no passado, colocando em perigo toda a vida na Terra. Como Neil diz “os dinossauros não sabiam do asteroide. Qual a nossa desculpa?”

Pense no quão extraordinário é viver neste planeta, sabendo de todas as mudanças extremas pelas quais nosso mundo passou. Pense na persistência da vida, que se espalha hoje como se fosse fácil existir, levando muitos a inclusive menosprezá-la. Há definitivamente um valor existencial compartilhado por mim, por você e todos os outros seres vivos deste pequeno planeta azul.

Bruno Birth

Bruno Birth

E aí, beleza? Sou engenheiro pesquisador e adepto inveterado da ciência, um fã fissurado de fantasia medieval, um amante informal de antropologia, um admirador da sétima arte. Sou um marinheiro do infinito mar do conhecimento e minha missão é, por meio de meus artigos, trazer sempre algo interessante pro seu dia-a-dia, caro leitor do “Sem Cultura”. Instagram: bruno_birth Twitter: @BirthBruno


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